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terça-feira, 7 de outubro de 2008

Poeta Convidado - Silvia Ancona Lopez

Silvia, minha irmã que eu chamo de Bebê, que me cuidava quando eu pequena e que um dia cortou, com alicate de unha, uma berruguinha que eu tinha no meu pulso e quase me matou, manda este texto e me pergunta se gostei. Se eu gostei Baby? Eu adorei. Por que você não escreve mais? Eu, adorei. Se os que vão ler vão gostar? Sei não, que não sou eles. Só sei que gostei. Eles, que leiam e digam. SENTA AÍ JOÃO Senta aí João, enquanto faço o café. A cozinha não está muito bonita, não mudou desde quando...pensava que quando você viesse eu poderia te receber em uma cozinha nova...mas, é o mesmo velho fogão, a geladeira meio capenga, os móveis descascando, mas está vendo? as crianças disseram: sua cozinha tá feia vó. Podemos enfeitar? E puseram esses adesivos todos, cobrindo os defeitos. Ficou bonito, não é? Eu gostei. Prá dizer a verdade quase chorei quando vi. Achei tão bonito o cuidado deles comigo. Estão lindos os teus netos...você nem viu crescer, mas pode sentir orgulho: são estudiosos, carinhosos, sempre que podem me visitam. Agora um pouco menos. Tem os amigos, os estudos, as obrigações. Eles são minha alegria, meu amor. Senta aí, João, pode deixar que eu pego o pó. Comprei esse pote novo. Diz aqui: hermeticamente fechado. Parece que o café fica mais gostoso, conserva o sabor, o perfume. Às vezes à tarde, quando sobra um tempo, faço um café para mim; sento aqui na cozinha e tomo bem devagar apreciando. Se a tarde está bonita a claridade que entra pela janela deixa uma luminozidade dourada, que enfeita meus azulejos. Tem dia que me perco olhando o céu, as nuvens branquinhas... fico adivinhando as formas, nem vejo o tempo passar. Sinto alguma coisa, assim, uma nostalgia e penso que eu gostaria de pegar um avião e conhecer outros lugares. Ir para Paris. Deve ser lindo Paris! Claro que eu conheço pela televisão, pelas revistas, mas às vezes gostaria de ir até lá e tomar meu café naquelas mesinhas que ficam na calçada. Quando escurece esqueço tudo isso, vou assistir minha novela, fazer meu tricô e me sinto..me sinto, assim.. quase feliz. Estou bem, eu estou bem. Os filhos andam muito ocupados, batalhando. A vida não é fácil, mas me telefonam.... algumas vezes passam por aqui correndo para ver como estou e nunca, nunca, esqueceram o meu aniversário. Aí trazem uma flor, às vezes um perfume. Sempre faço um bolo, as crianças cantam parabéns e é um dia muito feliz. Eu queria estar mais nova e mais bonita se um dia você aparecesse por aqui, só que o tempo passa, fazer o quê, não é? Tem jeito não. De resto estou como sempre, trabalhando na mesma escola só que um pouco cansada. Com a idade, dar aula à noite não é facil, mas graças a Deus, tenho meu trabalho que me ocupa, me dá satisfação e o meu salário, que não é muito mas me sustenta e às vezes até dá para ajudar os meninos em alguma precisão. Toda sexta à noite, jogo carta com a Maria José, a Dinha e a Luiza. Continuo muito distraida; só um pouquinho melhor e quando minha parceira é a Dinha chegamos a ganhar de vez em quando. Nesses encontros rimos muito, falamos da vida. Ninguém reclama. Somos umas velhotas alegres que não se queixam das dores, das decepções, da solidão...vez ou outra vamos ao cinema, mas é dificil. Gosto de assistir filme romântico que faça chorar e eu aí choro, choro, choro e saio bem levinha. Elas são mais de igreja do que eu, só que eu rezo todo dia e agradeço muito tudo que consegui, agradeço a força que Deus me deu para passar pelas dificuldades e peço proteção para todos. Já rezei muito por você também. Não levanta não, João. Senta aí, já vou pegar as xícaras e servir o café. Tenho lido muito; é a minha maior distração. Leio de tudo e lendo esqueço da vida, é como fazer uma viagem para lugares distantes. Invejo os escritores que sabem descrever os sentimentos e encontro nos livros a forma de dizer aquilo que sinto e não sei como explicar. Não tem nada melhor do que um bom livro. O que não aprendo mesmo, tenho a maior dificuldade, é com o computador. Essa linguagem da informatica me deixa louca. Às vezes vejo os meninos conversando e é como se fosse em outra lingua; não entendo nada! Nessa hora tenho medo de ficar fora do mundo. Ainda vou enfrentar esse problema e fazer um curso de computação. Tenho bastante energia para isso. Sabe, melhorei muito na cozinha. Meu feijão com arroz agora é uma delícia e tenho o maior prazer em descobrir uma receita nova. Quando as crianças vem almoçar aqui, sempre invento uma novidade e elas adoram meu bolo de banana! O café está pronto! Senta aí, João, deixa que eu mesma sirvo. Vou sentar, também, e me diga: por que você veio aqui, João? setembro, 2008