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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Lembrando do poeta que me lembrava





Nas peles que se tocam há um mar de memórias, que se lembram, que ainda sentem.
O resto é o amanhecer lembrando, o anoitecer lembrando, a lembrança de ti.
Zedu 2008

Tudo a ver
"Ele teve a sensação de ser. Não poderia explicar, tão profundo, nítido e largo que era. A sensação de ser era uma visão aguda, calma e instantânea de ser o próprio representante da vida e da morte. Então ele não quis dormir, para não perder a sensação da vida.
Clarice Lispector em Aprendendo a viver.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Relapsa

Deixaria as coisas para depois, esqueceria os óculos, não pagaria as contas, perderia a hora.
Seria ótimo ser, por um mínimo de tempo que fosse, aquela desligada das obrigações para quem alguém sempre faz o que deve ser feito pois ela, por si só, não faria.
Bom seria não abrir a agenda todos os dias, não verificar se os remédios foram tomados, se há mantimentos para o almoço, se os lençóis foram trocados, se há reuniões marcadas, relatórios entregues, telefonemas dados, orçamentos aprovados, contratos em dia.
Que tranqüilidade não ser aquela a quem todos chamam quando há algo a resolver, aquela que organiza os acontecimentos sem nada esquecer.
Um dia, alcançarei a paz desliganddo-me de obrigações, esquecendo-me dos compromissos.
Quem sabe algum dia serei aquela para quem é melhor não pedir nada.
Aquela relapsa, com quem ninguém pode contar.

Tita - 12/03/08

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Poeta Convidado - Telê Ancona Lopez

Telê volta, porque a publicação do poema abaixo foi colocada com a versão errada e, na volta, nos brinda com "Bach" que, conforme me conta a prima, quer dizer "riacho" em alemão. Bem Vinda Telê!

foto: André Porto Ancona Lopez

LINDAROSAMARIA

SABE CANTOS E BALADAS

ACALANTOS

E CONTOS DE RISO E PRANTO

TECE O TEMPO A VOZ CALADA

.....................NOS ACORDES DE CHOPIN.

.

LINDA ROSA MARIA

SABE DAS COISAS

DO HOJE E DO INFINITO

TÃO ANCILA E TÃO RAÍNHA

NAS SUAS CONVERSAS COM DEUS.

.

LINDA TÃO CHEIA DE GRAÇA

TANTO AMOR NO SEU VIVER.

Telê, 2008

BACH

Nesta água molho meus pés cotidianos

Depois os olhos para que eu não perca

a sede de buscar

...................a taça e o copo

...................a rede e a semente.

Telê (2007).

domingo, 1 de novembro de 2009

Ocupado

Nada mais cabe dentro deste conglomerado de neurônios eternamente em ação. 
Não cabe mais. 
Fecho a porta lutando pela conservação de uma pequena área, reserva obrigatória para abrigo de meus sonhos, cenas futuras imaginadas, poemas, pessoas queridas, sentimentos fortes
e minha paixão incontida, reflexo deste coração e de meu amor pela vida. 
O restante já quase explode, totalmente ocupado com o peso da realidade.

Tita - 20/03/2008

domingo, 25 de outubro de 2009

lança-perfume

Não me lembro se não se falava em drogas ou se nunca tínhamos pensado nisto ou escutado a palavra. Parecia tão divertido e sem problemas carregar um frasco de lança-perfume para o baile de carnaval... 
Salão cheio no carnaval em Jaú, tenra adolescência. Dançávamos em pé sobre as mesas espirrando lança-perfume nos meninos bonitos que passavam ou, abraçadas a eles, cheirávamos aos poucos nos ombros das camisas, rindo muito, como se nada fosse, abertamente e sem peso nenhum de consciência. 
Não nos avisaram? Ou não escutamos? 
Um dia veio o susto: alguém amigo havia adormecido com a cabeça em um travesseiro cheio de lança-perfume, para nunca mais acordar. 
Do susto veio a tristeza e da tristeza o medo. 
Havíamos desafiado o perigo sem nem mesmo saber ou perceber. 
Diante da morte estávamos nós, cheios de vida. 
Surpresos ante o desconhecido, abalados ante o inesperado, amadurecidos, antes da hora. 

 Tita 28/01/08 - revisto em 26/10/09

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Poema e Video roubados - Zédu

Soneto no espelho
Eles tinham um pouco tão imenso,
Que os amantes restaram satisfeitos.
Depois as sombras, o nevoeiro denso,
E hoje nem de sonhos o pouco é feito..
.
Neles, é como um rio que secou,
As árvores, nos dois, calcinadas,
Marcas do impossível que passou
Em um amargo gosto de nada..
.
Ficou o deserto, a triste paisagem,
O inverno eterno, as almas geladas,
O vazio e um espelho sem imagem..
.
E seguiram, com as vozes caladas,
Para o abismo, a queda, a miragem
Do amor em águas passadas..
.
Com uma dor que não se amansa,
Perdidos nos seus grãos de nada,
Saudosos da pouca esperança
E dos sonhos de contos de fada..
.
Mas pagam as escolhas feitas,
O não na boca amargada.
E na teia por eles desfeita
Resta uma aranha alucinada.......
Zédu - 27 de maio de 2008
http://zedupoca.blogspot.com - o blog que se calou.
.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Foco

Não vejo você direito. 
O que era colorido só vejo em preto e branco, o que tinha luz e sombras transformou-se em borrão.
Costumava ver, não sei o que aconteceu. 
Olhava você e via seus medos, sonhos, sentimentos, seus caminhos e seu sorriso sempre tão cheio de significados.
Na sua boca só vejo um ricto triste e o brilho de seus olhos não consigo vislumbrar. 
Deve ser o tempo que estragou meus olhos, ou os caminhos que se transformaram em labirintos.
Constato que você me olha pouco e por vezes me olha como se eu não estivesse ali. 
Não me vê? 
Talvez veja destorcido, sem contraste... 
Será que eu também, perante seus olhos, perdi os tons? 
O que foi feito de nossas cores?
 Interessante o que pode acontecer através dos olhos: as imagens que mais nos extasiaram ao longo dos melhores momentos da vida tornam-se, num repente, completamente fora de foco.

Tita - 25/03/08

domingo, 13 de setembro de 2009

Nonsense


.Era um cacho. 
Mas não sabiam definir de quê. 
De certo não era um cacho de uvas, ou de cabelo...Não. 
Era um cacho diferente que às vezes nem cacho parecia.
Após muita discussão definiram que cacho não era. 
O laudo final foi: amontoado de elementos, presos por uma membrana central. Em seu conjunto tomam forma alongada que começa mais larga e torna-se afinada em seu final. 
Assim, safaram-se do trabalho de descobrir de que era formado. 
Presunçosa, apesar de não ter participado das discussões, quis ver de perto, na certeza de que conseguiria descobrir. 
Olhei e analisei durante horas. 
Não cheguei a conclusão alguma e ao participar da entrega do laudo final, assinei embaixo. 

Tita - 23/01/2008

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Fagulha

Quando chegou não imaginava que ela estivesse ali. Procurou fazer com que não o visse, andou de lado, deu-lhe as costas. Sentiu-se covarde e despreparado mas não sabia o que fazer no momento. E se ela o tivesse visto? Acendeu um cigarro e começou a conversar com um amigo, retornando ao salão pelo outro lado e não olhando nem um minuto na direção dela. Fingiria que não a vira.

Quando ele chegou assustou-se. Não imaginava encontrá-lo ali. Tinha certeza de que não a vira, pois estava de costas. Sentiu-se trêmula e despreparada e não sabia o que fazer no momento. Será que ele a vira? Levantou o queixo, endireitou o corpo e começou a conversar com a amiga, olhando de soslaio na direção dele. Fingiria que não o vira.

Ficou nervoso. Na verdade queria chegar perto dela, mas não sabia como. Ao mesmo tempo achava que não devia. Afinal de contas ela o magoara. Ele sabia que tinha razão. Ela estragara aquele encantamento tão delicado que ele sempre sentira. 

Ficou nervosa. Será que ele gostaria de chegar perto dela? Mas não, ela não devia. Afinal de contas ele a magoara tanto! Estragara aquele amor incondicional que ela sentia.

Decidiu-se. Melhor esquecer. Procuraria tirá-la do pensamento de uma vez por todas e se fosse o caso de se encontrarem, agiria normalmente. Relaxou. 

Decidiu-se. Melhor seria esquecer. Ele realmente não a amava. Procuraria tirá-lo do pensamento de uma vez por todas e, quando o encontrasse, agiria friamente. 

Ao pegar uma bebida encontraram-se. Nos olhos dele, fagulhas rancorosas. Nos olhos dela, fagulha certeira. Olhos fixos. Ele viu o brilho, ela viu o profundo. Ele teve vontade dela, ela quis se abraçar a ele. Aproximaram-se, ao mesmo tempo. Nos olhos dela uma lágrima, nos olhos dele um sorriso. Abraçados e emocionados, deixaram a festa, juntos.
 Tita - 30/05/08

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mutante

Fui feita em molde mole
que em formato não se amolda
E que sem formato fica
a treinar se formatar.
Fui feita em data incerta
num relance, num repente.
Sem plano e sem esquema,
eu fui feita sem um tema.
Fui colocada em local
sem escolha ou previsão
Foi-me dado sentimento
sem me ensinar lição.
Fui feita de mil cores
que visto a cada dia
Na tristeza visto opaco
e brilhante na folia.
Fui sem esperar, chegada.
Eu nasci em novidade.
E por não ser pré-pensada
já fui feita com saudade
Por isso me mostro assim
A rir e a chorar derretida
Porque sou feita de mim
E me moldo com a vida.
Tita

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Pissiricota

Houve vezes em que, sentindo-se bem numa pausa da doença que o perseguia, deixava-se brincar.
Cruzávamos meus braços com os dele, frente ao corpo.
Ele grandão, eu tão pequenina, a mão esquerda dele com a minha mão direita, minha mão esquerda com a mão direita dele (lembro-me de como me segurava firme). E assim, com as mãos cruzadas, saltitávamos a cantar durante todo o percurso do corredor lateral da casa (pissiricota, pissiricota, pissiricota pum! ). Pimpão, meu cão, corria junto latindo, alegre.
Muitas vezes repetíamos este saltitar e o prazer de estar assim com ele, nunca foi igual a nada na vida.
Depois de um tempo (tão pouco) ele se foi.
Então Pimpão esperava que eu chegasse da escola e, segurando com a boca uma ponta de um pedaço de madeira, chamava-me latindo a saltitar pelo corredor. Eu entendia, segurava a outra ponta, e procurávamos repetir a cena. Pissiricota...pissiricota.... Inútil. A alegria da infancia estava perdida e nada jamais seria o mesmo depois que meu pai se foi.
Tita 26/05/08

domingo, 9 de agosto de 2009

Roubo

Meus anseios devorou
minhas curvas devassou
meus caminhos descobriu
meus pensamentos roubou.
Apossou-se de tudo.
Sorveu-me, 
bebeu-me,
roubou-me de mim.
Não mais me tendo no inicio pós fim,
sou corpo sem alma,
mistério de mim.
Tita 30/05/08

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Outono

Lembro-me das cores fortes quando passeávamos no parque. Alamedas e alamedas, nem sei como conseguíamos achar o caminho de volta. Era leve, era bonito, alegre, não havia preocupação com o depois e nem mesmo fazíamos planos porque, naquele momento, nada nos faltava.
Você se lembra?
Passeávamos no parque nos fins de semana e, durante a semana, pelas ruas iluminadas.
Entrávamos no teatro, no cinema, no que fosse e, na busca de nada, encontrávamos sempre algo novo para preencher os momentos.
Vivíamos o desconhecido de cada instante com calma e interesse.
Sempre colorido, sempre calor, sempre verão e primavera, sempre você e eu.
Faz muito tempo.
Você se lembra?
Quando você se foi não voltei aos parques nem andei pelas ruas, nunca mais encontrei quem gostasse de parques ou de andar sem rumo, em silêncio, contemplando a natureza.
Quando você se foi fez-se outono e, por muitos anos, não vi flores e nem cores.
Quando você se foi, perdi minhas matizes.
Fiz-me outono e misturei-me com as flores secas do chão.
Tita 12/05/2008

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ensaio

.
Não sei porque ensaiamos tanto.
Repetimos as falas por vezes sem fim, seguimos à risca os perfis pré-determinados e cismamos em não modificar, nem minimamente, os papéis que nos dispusemos a representar.
O problema é que ensaiamos tempo demais e nos perdemos em detalhes.
De tanto repetir as interpretações, passamos a utilizá-las a qualquer momento, desvirtuando-nos em todos os sentidos.
Transformamo-nos em repetidores e nunca conseguimos marcar o dia da estréia.
Fica só na ilusão a nossa grande performance!
Tita 17/04/08
Tudo a ver
"Ele me ensinou que tudo aquilo que retratamos no palco deve ser mostrado de dois lados. Ser ilustrado tanto em preto como em branco. Quando sorrio, devo também mostrar a careta que há por trás do sorriso. Tentar representar o reverso do movimento - da emoção."
Liv Ullmann em "Mutações"

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Pausa


foto - Caracala - Rodrigo Larrabure
.
Foi ele que propôs a pausa (lembrava-se), olhando-a com os olhos nunca sabia se azulados ou esverdeados cor do mar e falando seriamente como não costumava, bem ele que era brincalhão, debochado, alegre mas naquele dia estava diferente, as palavras eram pronunciadas devagar e o olhar ia fundo e ela escutou e pensou bem ela, acostumada a não pausar, pois que emendava a vida, o amor, as atribulações e até as solidões e como seria agora, num repente pausar, parar não era possível, não seria possível, ela não conseguiria e como fazer se ele afirmava que era necessário?

Sentiu saudade dele, daqueles olhos, das mãos dele, da maneira como a seguravam, da força dos braços, do calor do corpo, do modo como a acariciava, de como despertava nela o desejo e a levava tão longe e tão bem levado, de como sussurrava, ai como ela gostava dos sussurros e dos corpos juntos que se entendiam, e se saciavam vezes sem fim e sim, isso existe mesmo, já estava quase esquecendo e sentiu tanta falta e para que essa pausa meu Deus do céu, a vida não deveria pausar assim, nunca, nunca, nunca, o bom não deveria nunca terminar e o corpo não deveria nunca sofrer e todas as metades deveriam se unir e aproveitar aquelas sensações tão boas e tão loucas de coisas tão completas porque quando se vão as uniões fica parecendo que é impossível encontrar de novo a sensação do pertencimento tão completo e porque será que ele quisera pausar?

Era impossível que ele não voltasse e ela esperou no esforço da calma que não vinha, e esperou na certeza de que o corpo sem ele nunca mais seria o mesmo e ela esperou na ânsia de ter de novo a boca beijada naquele beijo que extasiava e ele tem de voltar e vai voltar e chegou o dia em que ele voltou com aquele olhar tão lindo e com os braços tão fortes e quando ele voltou aquele sentimento tomou conta e como era bom como era bom amar ele e estar com ele e sentir, sentir todas aquelas sensações que só com ele, só com ele e que bom que ele quisera a pausa porque agora a apertava com tanta força, e gemia, e queria mais e pedia e como ela gostava, e dizia nunca, nunca mais pausar e se roubavam de qualquer razão e se enlevavam os dois juntos, saiam do mundo e ele sussurrava ah quando ele sussurrava ela tremia e dizia nunca mais, nunca mais...

Tita 18/07/08

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Vírgulas

Tenho tanta preguiça de explicar! 
Passo ao largo, quero que entenda.
Ai que trabalho explicar tudo, entrar nas minúcias, nos detalhes, no passo a passo!
Prefiro passadas largas que, decididas, não necessitam definições.
Prefiro o verso que, com pouco, completa.
Quero dizer com ínfimas palavras, cada vez menos.
Entremeá-las com suspiros, gemer um pouco, dar um sorriso, uma risada, fechar os olhos, dormir. Palavras poucas, jogadas aqui e ali.
Quem fosse o objetivo de minha fala entenderia com certeza, poupando-me o trabalho da contextualização.
Fico com o essencial.
Frases curtas, poucos adjetivos.
Abolidas as vírgulas, passo adiante, chego ao final.
Tita 7/07/08

sábado, 20 de junho de 2009

Desconvido e pronto

Vem então. Vamos nos entregar ao que vier.
Sem pensar em nada, vamos soltar o corpo, deixa rolar, gozar os momentos, rechear o dia de acontecimentos. Vem comigo. Vamos nos abandonar ao acaso, fazer só o que der vontade.
Estou pra você, sem filosofia, hipocrisia, indecisão. Me pega e me leva. Me abraça, me beija a boca, beija mais, me abraça com força, não esquece a musica que com musica sou muito melhor. Nem pergunta! Me leva e me deixa ser essa que eu sou, quero você assim, do seu jeito.
Aceita minhas disparidades, acredita na minha fala, não me pensa o que não sou. Não analisa! Mergulha comigo no mar, tira a minha roupa, brinca de me afogar.
Diz coisas sem nexo, não promete, não jura, só me escuta essa loucura. Deita comigo na grama, entra no rio, me rola na areia, me ri, me lambe. Deixa que eu fale e desfale.
Olha e sorri.
Me ensina do seu jeito carinhoso, me diz pra ficar, me faz um carinho gostoso. Me aquece, me enternece, me bole e me pede o que quer, eu to pra o que, de você, vier. Vem! Me deixa rouca e eu te deixo tonto. Mas, se não quiser, só diz. Eu nem duvido. Desconvido e pronto.
Tita 23/10/08

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Cotidiano

Roubava de si mesma a cena e não se deixava vivê-la porque tinha aquela mania de exagerar tudo. Sentimental, dramatizava cada pequeno acontecimento transformando o dia a dia em cenas ou versos, por vezes traiçoeiros, por outras animadores do que não era digno de animo. Deturpava toda e qualquer realidade tornando os acontecimentos mais valorizados do que deveriam ser. Acostumou-se assim a não viver o presente e a desenhar, no futuro imaginado, grandiosidades que nunca se tornariam realidade. Só muito tarde percebeu que eram as coisas simples, vividas com calma, cuidado e dedicação que realmente faziam a diferença e então, as cenas do cotidiano passaram a ter a devida importância. Talvez tarde demais. Quase tarde demais. Tarde demais? 10/07/2008

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Nervoso

Quando ficava nervoso falava alto, os olhos soltavam faíscas e batia com o punho fechado na mesa. Olhava firme e buscava a culpa de quem fosse, em quaisquer olhos que encontrasse. Eu tremia, mesmo sabendo que a culpa não era minha. Um dia consegui me distanciar e, mesmo sendo atacada, não deixei que os ataques me fragilizassem. Consegui me retirar da cena e assisti-la e vi um homem, vermelho de raiva, corpo grande, posição de ataque, querendo fazer valer a qualquer custo seu poder. Um homem mimado. Isso é que era. Acostumado a ter tudo a tempo e à hora. Porque não adivinhavam todos o seu pensamento? Porque não entendiam sem que explicações fossem dadas? Um homem descontrolado, solitário e digno de pena. Deste dia em diante a cada ataque que assistia, dirigido ou não a mim, eu buscava os detalhes: das palavras isoladamente, das mãos, dos olhos, da posição do corpo, do enrijecer dos músculos.... A cada som mais alto, mais interessante se tornava o trejeito da boca. A cada respiração entrecortada, mais tremia o enorme corpo. A cada movimento das mãos mais interessada eu ficava. Estes detalhes tomavam tanto a minha atenção e eram tão intrigantes que passei a receber com prazer aqueles ataques. Tornei-me espectadora assídua, vinha de onde estivesse para vê-los. Lembro-me até hoje de todos os trejeitos e da cena chocante mas, das palavras, esqueci-me completamente. Não tinham a menor importância. 21/02/2008

domingo, 17 de maio de 2009

Carceragem

Em prisão voluntária colocou-se. Não é preciso trancar a porta.
Não sai por vontade própria embora sofra terrivelmente por permanecer.
Com a chave na mão, não se decide. Duvidas profundas quanto a seus próprios sentimentos e quanto à coragem de encarar uma vida sem os laços que o acompanham há tanto tempo. Dicotomia de pensamentos. Sai ou não?
Por enquanto fica ali.
Vez por outra arrisca um contato rápido com o mundo sem fronteiras. Chega a acreditar que não voltará à cela. Cheio de novas idéias e energia, inicia novos projetos, escreve novos textos, arrisca itinerários, telefona números nunca discados, canta e dança em pensamento.
Ao anoitecer, sente-se perdido. Em vão procura a serenidade, andando em círculos e por fim, qual detento em prisão semi-aberta, retorna encostando a porta da cela atrás de si.
Procurando não perder as esperanças fala consigo mesmo - um dia saio por aquela porta, abraço uma vida nova e não volto mais – enquanto uma voz interior persistente e longínqua sussurra: será?
30/01/08