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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Repentes

Se eu falar demais, 
rir fora de hora, 
Não significar seu sonho, 
perder a fala, 
perder a cor...
Se não for engraçada 
ou inteligente, 
nem culta, 
interessante 
ou preparada...
Se você se irritar 
e ficar louco ...
Se se entristecer
e eu calar, 
nada disser...
Se eu enfeiar
com olheiras 
e cansada...
Se num repente
eu para você 
for nada,
prometa
que me dirá.
Não me deixe 
sem aviso,
Não se vá.

Tita - 01/10/2014

Tudo a ver
Tão abstrata é a ideia do teu ser
que me vem de te olhar, que, ao entreter
os meus olhos nos teus, perco-os de vista
e nada fica em meu olhar, e dista
teu corpo do meu ver tão longemente,
e a ideia do teu ser fica tão rente
ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
sabendo que tu és, que, só por ter-me
consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
a ilusão da sensação, e sonho,
não te vendo, nem vendo, nem sabendo
que te vejo, ou sequer que sou, risonho
do interior crepúsculo tristonho
em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
Fernando Pessoa

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Planilha

Não fazia nada sem consultar a planilha. Perguntei: o que tanto tem aí que você não para de consultar? Disfarçou. Perguntei: são contas? Respondeu que preferia não comentar o assunto. Foi aí que fiquei curiosa: o que haveria ali? Por que não queria que eu visse? Perguntei: Por que não quer que eu veja? Respondeu que não havia motivo algum, apenas eram coisas dele, só dele. Enlouqueci. Saber o que havia ali tornou-se questão de vida ou morte. Não consegui mais falar de outro assunto: por que não podia ver? Que segredo era aquele? Seria segredo de trabalho ou da vida pessoal? É sobre alguma mulher? Você tem outra? Você não confia em mim? Riu: deixe de ser boba, não é nada importante. Piorou. Se não era importante por que não poderia mostrar? Entrei em desespero. Não dormi. Deve estar acontecendo algo muito sério, ele sempre me mostrou tudo. Acordei pedindo por favor, me deixa ver! Irritou-se: para com isso, você já está exagerando, assim já está demais! Chorei. Não acreditou quando me viu chorando. Entristeci, lágrimas escorrendo, incontroláveis. Abraçou-me: mas por que você quer tanto ver? Expliquei que me parecia uma questão de confiança, que eu era desconfiada, que era insegura, que estava me sentindo péssima. Então ele disse: Tá bom, pode ir lá e olhar o que quiser. Corri. Vi. Não era realmente nada demais. Coisa sem graça, sem motivo, simples. Ele riu, abraçou-me carinhoso. Minha aflição passou. Relaxei. Sorri, dei-lhe um beijo, agradeci. Então pensei: ainda bem que ele nem sabe que eu tenho uma, porque a minha nunca vou mostrar! 05/02/2009 Tudo a ver "Se eu pudesse trincar a terra toda E sentir-lhe um paladar, E se a terra fosse uma cousa para trincar Seria mais feliz um momento... Mas eu nem sempre quero ser feliz. É preciso ser de vez em quando infeliz Para se poder ser natural..." Fernando Pessoa (Alberto Caeiro) em "Se eu pudesse trincar a terra toda"