terça-feira, 24 de abril de 2012

Equilíbrio


Talvez tenha ido embora com você a minha chance. 
Aquela, que esperei por todo o tempo que vivi, antes de conhecê-lo. 
Talvez eu não tenha percebido que você a carregava assim, como uma coisa delicada ou, quem sabe eu, desastrada, a tenha derrubado e, por te-la derrubado, não lhe dei a devida atenção?
Você sabia bem melhor do que eu que a chance estava ali. E mostrou-me e disse, várias vezes.
Foram tantos disparates e tantos desencontros dentro daquele que foi o maior encontro...
Hoje sei que estava presente nas palavras infindas dos olhos brilhantes, na vontade do contar que nos mantinha acordados e alertas, na alegria que nos prendia e nos fazia crianças, no vazio que acontecia quando nossos corpos separados. 
Havia em tudo a grande chance que, com você, se foi.
Aonde você a colocou? Jogou fora? Escondeu? 
Diga-me por favor. 
Preciso encontrá-la para aprender a carrega-la com a delicadeza que só você sabia. 
Preciso equilibrá-la em minhas mãos para quem sabe, um dia, encontrar a quem oferecê-la.



segunda-feira, 23 de abril de 2012

Escrever?

Saber o que escrever?
Escrever, saber o que?
O que escrever? Saber.
O saber. Que escrever?
Que saber! O escrever.
O que saber? Escrever.
Escrever o saber. Que?
Escrever que saber? O...
hic...hic....hic

Tita - 23/04/2012

Tudo a ver
"...ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemos mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nessa ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância, e que transforma um no outro... Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois ou, antes, torná-la impossível."
Giles Deleuze, Diferença e Repetição, Graal, 1988

domingo, 22 de abril de 2012

Madrugada

Como é imprevisível a noite!      
Pessoas pela rua, carros, buzinas, movimento...
Não esperava encontrar, neste avançado da hora, 
o movimento do dia.    
São três horas da manhã e dirijo alegre, 
perdida na madrugada.
Feliz e, comigo mesma, chego bem em casa, 
ainda inserida na conversa  recheada de perspicácia e alegria 
(talvez, muita bebida?)
   Sim, esta é a cidade que escolhi.
Porque pulsa,
                                        como eu!                                          

 Tita, madrugada de 22 de abril de 2012


sábado, 21 de abril de 2012

Posse


Como se há muito esperasse por um momento seu de distração, desabou as palavras sobre ele, pegando-o desprevenido.
Momento inesperado.
Então entonteceu e a vista ficou turva. Não soube o que dizer e teve sono, muito sono. 
É o que lhe  acontecia nestas horas. Um sono pesado e incontrolável apossava-se dele. Nada pensava, dizia ou fazia. Queria sucumbir, entregar-se ao vazio, dormir, nada mais. 
Porem, a musica tocava e por isto, só por isto, sabia que faria um esforço enorme para não fechar os olhos. Musicas tinham um estranho poder sobre ele e, por mais que desejasse entregar-se, deprimir-se ao ultimo grau, esquecer e abandonar-se, a musica não permitiria. 
Rendeu-se ao som. 
Abriu os olhos aos poucos, sabendo-se pequeno na sala leve e enorme. A musica grande, apossando-se dele, invadindo seu corpo e todos os seus espaços escondidos. 
Ainda com os olhos turvos e o coração tão diminuto que parecia pararia a qualquer momento, deixou-se tomar. 
Levantou-se devagar e começou a dançar, lentamente.  
Enquanto houvesse musica...


Tita 21/04/2012


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Asas Abertas


ウィングのオープン
0
Novo momento
Sensações vagas
Sentimento ao vento

Tita - 19/04/2012


Tudo a ver
Devemos supor que existem certas lições a serem tiradas do amor, ou senão continuaremos felizes em repetir nossos erros indefinidamente, como moscas que enlouquecem batendo as cabeças contra vidraças, incapazes de compreender que, embora o vidro pareça claro, não pode ser atravessado.
Alain de Botton em "Ensaios de amor"

terça-feira, 17 de abril de 2012

Haikai III

s
空でハート
s
Silencio no ar
Barulho de solidão
Coração vazio

Tita 17/04/2012


Tudo a ver
" Por que você me ama apenas um pouco?
Como você faz para amar um pouco?
Amar "um pouco", que quer dizer isso afinal?
Vivo sob o regime do "demais" ou do "não-suficiente"; 
ávido de coincidência, tudo o que não é total parece-me parcimonioso; 
o que procuro, é ocupar um lugar a partir do qual as quantidades
não possam mais ser vistas e do qual o balanço esteja banido"
Roland Barthes em "Fragmentos de um discurso amoroso"

domingo, 15 de abril de 2012

Haikai II

      俳句       

Juntam-se almas
Em completo encontro
Rimando, calmas.

Olhar, sedução
Chamas a se acender
Nascendo paixão.

Tita 
15/04/2012

terça-feira, 10 de abril de 2012

Eucalipto



Naquelas férias os dias e noites cheiravam a eucalipto.
Havia musica dedilhada ao piano com força, canto,
 passeios de bicicleta, amigos cheios de vida, risos, danças e  arroubos de amores de verão.
Naquelas férias os dias e noites cheiravam a novidade.
Calor e água fria da piscina lavando a noite pouco dormida, acordando o corpo para o novo dia com sempre surpresas.
Naquelas férias, as musicas causavam arrepios e os beijos tomavam todos os sentidos. 
As vozes gravavam-se nas mentes e os rostos permaneciam vivos a cada pensamento.
Então eu respirava fundo porque, diziam, eucalipto fazia bem  para os pulmões. 
Puxava o ar com força e fechava os olhos. Enchia o peito e tinha a certeza de que aquela saúde que entrava, jamais me abandonaria. 
Naquelas férias os dias e as noites cheiravam a inesquecíveis 
e assim se tornaram.
Só de lembrar, o corpo se arrepia.
Então, canto aquela musica e teço devaneios.
Só porque coisa boa é muito bom de lembrar.

Tita 10/04/2012

domingo, 8 de abril de 2012

Vida?

Um dia nos renderemos.
Recolheremos nossas asas,
limitaremos nossos pensamentos.
Deixaremos de nos lembrar,
de noites vadias,
de peles macias.
E nos abandonaremos,
a contemplar a vida.
Vida?
Tita 07 04 2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O amor morre

死
Como morre o amor?
Assim, devagarzinho, 
antes de começar.
.
死亡
Morre
com idéias não trocadas,
e falas impensadas.
.
の死
Morre
em incentivos inexistentes,
comentários insipientes.
.
死の
Morre
simplesmente porque,
nem devia nascer.


Tita 06/04/2012

Tudo a ver
Hoje, tem algo errado?
Não, por que? Tem alguma razão para isso?
Acho que não
Então por que está perguntando?
Não sei. Porque você está parecendo um pouco infeliz
Alain de Botton em "Ensaios de Amor"

Hai....kai....


  • Café no fogo
    O cheiro anunciando
    Um dia novo

    ..............................................................
                           
    Mal amanhece

    E já meu pensamento

    Futuro tece


    ..............................................................

Que dia lindo
Pena que me lembra
Amor já findo
.................................................................

Se eu já me vou
É porque nada resta
Do que se passou
..................................................................
Mas por que me quer
Se de mim só recebe
O que me aprouver?
................................................................
                         
Um quadro torto
Na parede lembrando
Amor já morto


...................................................................
Tita 06/04/2012

Tudo a ver
"Os poetas japoneses sabiam como expressar suas visões da realidade numa observação de três linhas. Não se limitavam a simplesmente observa-la, mas, com uma calma sublime, procuravam o seu significado eterno. Quanto mais precisa a observação, tanto mais ela tende a ser única, e, portanto, mais próxima de ser uma verdadeira imagem. Como disse Dostoievski, com extraordinária precisão: A vida é mais fantástica do que qualquer fantasia.
Andrei Tarkovski, no livro "Esculpir o Tempo"
....................................................................................

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Recheios

   
Contou-me dos dias em que descobriam uma nova vida no sertão, daquelas tardes, cavalos apeados na beira do córrego, os dois a desbravar o novo, no  meio do mato, no córrego raso, deleitando-se com o inexperimentado.
Soltos, leves, em um saciar das curiosidades, experimentar de gostos, de sabores, de gestos, de valores.
   Foi com ele, disse ela, que conhecera a possibilidade de usufruir do desconhecido. Foi com ele que aprendera a percorrer caminhos, em todos os sentidos do descobrir da vida.
   Eram da mesma estirpe e, sem temor algum, experimentavam e viviam tudo o que criavam em suas mentes.
   Enquanto a escutava pensei na importância das cabeças irmãs, das logicas que seguem meandros parecidos; das mentes que conseguem movimentar caminhos e, pegando no ar as mudanças de direção dos pensamentos, seguem em segundos as propostas de rumos inéditos; entendem-se num rápido olhar.Um comungar de idéias que consegue preencher os vazios e rechear futuros com a certeza de que não serão estáticos e terão sempre novos e variados recheios.
   Então pensei nos recheios, cujos vários ingredientes formam gostos diferentes. E pensei que a receita básica pode ser a mesma mas, os temperos, que sejam únicos, saborosos, instigadores e surpreendentes. 
Só assim, saciarão totalmente a fome.

Tita - 02/04/2012

Tudo a ver
"Me gusta la gente que vibra, que no hay que empujarla, que no hay que decirle que haga las cosas, sino que sabe lo que hay que hacer y que lo hace"
Mario Benedetti


Sem cor

Tantas vezes juntas ao longo da vida e não me lembro da cor dos olhos dela. Como é possível? 
Estranho, aquele olhar. 
Percebi quando, aos dez anos, sentou-se pela primeira vez no meu colo para pentear meus cabelos.
Hoje nos vemos pouco porém, aparece por aqui sempre que algo de ruim lhe acontece e então, ainda hoje, senta-se no meu colo e penteia meus cabelos. 
Caso esteja bem telefona-me vez ou outra, alegre, contando coisas, rindo, dizendo-se feliz.
Mas eu sei, ah se sei! Há algo de estranho naquela voz, tão estranha quanto o olhar que não me lembro que cor tem.
Eu me lembro bem de que quando fala, nem olha nos olhos. Aliás, finge que olha, mas eu sei! 
Eu a conheço e sei coisas dela que nem mesmo ela imagina que alguém saiba. Eu sei porque vi, muitas vezes. Mas não comento, que não sou de comentar, e além do mais (coitada) teve motivos, uma vida sofrida isso sim foi o que teve.
Por isto estranhei quando telefonou ontem calma, tranquila, não parecia a mesma. Então contou-me que foi contratada por uma empresa grande, salário bom, perguntei mas vai fazer o que? Vender livros, falou! Você não sabe da paixão que eu tenho por livros? Sim, eu sei... Desde bem pequena lia muito, até compulsivamente, qualquer livro, qualquer anuncio, qualquer revista, trancada nos quartos, no banheiro... Dava-se bem com os livros mas vende-los? Saberia? Diga, como foi que conseguiu o emprego? Entrevista? Aonde? Uma mulher? Que perguntas ela fez?
Disse-me que contou tudo: sua vida, a infância difícil, o casamento, os filhos entristecidos, a terapia, a mãe criança, o pai alcoólatra, o choro que chega por vezes sem motivo (mas você contou isso? Numa entrevista de trabalho?). Contou. Contou muito de si. 
Mas eu sei que aquilo, ela não contou. Não contou porque pensa que ninguém sabe. E eu sei que não olhou nos olhos de quem a entrevistou. Sem duvida fingiu olhar e enganou bem porque, tivesse olhado firmemente, quem quer que seja teria visto aquele algo tão estranho naqueles olhos que eu não me lembro de que cor são. Aonde será que aprendeu a olhar esse olhar que quando não quer ser visto não se mostra?
De qualquer maneira, é bom que tenha conseguido o emprego! Espero que dure. Os últimos duraram tão pouco... Com o tempo (pouco) as pessoas percebem que há algo que incomoda, e muito. Ficam desconfortáveis porque não conseguem descobrir o que é...
Eu sei mas não digo. 
Então acontece como sempre, vem me ver chorando, senta-se no meu colo e nada diz. Vai ver sabe que eu sei...Penteia meus cabelos em silencio enquanto lágrimas escorrem, tantas que chegam a molhar minha roupa. Não digo nada. Acaricio seus cabelos e, devo confessar, choro com ela.
E rezo, isso mesmo, rezo para que em alguma próxima entrevista seja lá quem a entreviste não perceba o que eu sei e dê a ela a chance de ser contratada novamente. Quem sabe algum dia consegue realmente superar tudo aquilo?
Mas de que cor mesmo são os olhos e por que será que eu não me lembro que cor têm?

Tita- revisitado em 16/04/2012

Tudo a ver 
Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço
Mia Couto em "Raiz de Orvalho e outros poemas" 



quinta-feira, 29 de março de 2012

Borbulhava

Como borbulhar? Desaprendi. 

Lembro-me de borbulhas em um copo que, estranhamente, estava embaixo de um piano (de veneno? Quem bebeu morreu?), há muito tempo atrás.

Peguei-o mas me foi tirado e vi  apenas as costas de quem o levava provavelmente cheio até o topo, com toda a minha capacidade de borbulhar. Não olhou para trás e nem mesmo preocupou-se, dia algum, em saber se me fazia falta o copo borbulhante. 
Deve te-lo esquecido em qualquer lugar por onde passou, nunca mais recordando-se dele ou de onde foi deixado.

Desde então posso ter criado tufões, ventos fortes e benignos ou até leves brisas nada permanentes mas, borbulhas...nunca mais.

Tenho entrado embaixo de pianos em busca de copos perdidos, ou até procurado me deixar levar pelo vento mas...nada! 

Foram-se as borbulhas.

Deve ser por isto que prezo tanto o mar. 
Deixo que  a água me invada enquanto procuro segurar as pequenas bolhas que se formam nas ondas e que, 
que pena, 
parece que afastaram-se irremediavelmente do meu ventre.

Tita
29 03 2012

Re-criar


Quisera eu, produzir o inédito. 
Por vezes, é como se tivesse criado uma personalidade que, estando de certa forma fora de mim, repete-se de forma incansável e, de tanto repetir-se, torna -se terrivelmente cansativa no gravar dos mesmos termos, tópicos e emoções.
É preciso re-novar, re-criar, re-ser, re-ver, re-aparecer com novas roupagens, a cada vez.
Não posso correr o risco de perder-me indefinidamente em re-escritas do mesmo.
Sei que para re-criar tenho de lançar-me ao mundo, sem medo, ousando o que me for possível.
Por isto e para isto lanço-me a cada nova experiência, deixando que, seja no final bem sucedida ou não, se aposse de mim de qualquer forma para que possa ser traduzida em sentimentos, quem dera novos, gravados nesta tela.


Tita - 29/03/2012

Tudo a ver
"Courage is not the absence of fear; it is the making of action in spite of fear, the moving out against the resistance engendered by fear into the unknown and into the future"
"The Risk of Loss" - M. Scott Peck in "The Road Less Travelled"

sábado, 24 de março de 2012

Brinde


Abriram a porta do apartamento quase vazio, 
percorreram os cômodos de poucos móveis.
Ela disfarçando um sorriso, 
ele coração disparado.
Ela pegou dois copos.
Ele abriu o vinho que carregava,
ela plugou o ipod. 
Musica.
Sentaram-se no chão, 
brindaram.
Um em frente ao outro, 
tomaram um gole de vinho.
Olharam-se nos olhos 
e com os olhos conversaram.
Ele estendeu a mão,
entrelaçaram os dedos.
Aproximaram-se devagar,
beijaram-se devagar
e devagar se amaram,
no chão,
com calma.
Ele nunca se esqueceu.
Ela ainda se lembra.

Tita

Tudo a ver
"...o corpo é o motivo fundamental de nossas ações e de nosso comportamento, que ocultamos nas vestimentas de nossos símbolos e cultura. Um corpo com moral cria um mundo de roupas que veste o nu. Mas o nu continua visível, mais talvez do que quando não era coberto por qualquer roupagem"
Nilton Bonder em "A Alma Imoral"

sexta-feira, 23 de março de 2012

Fervendo


Sou bola de fogo
Um turbilhão.
Sou vento,
tufão,
sou bomba,
rojão.
Pulo o caminho,
ultrapasso o fim,
sou um trovão,
sou raio,
estopim.
Ebulição de vulcão,
frenesi constante,
sou intermitente,
sou onda gigante.
E em letras explodo,
o que é indizível;
Desenho e rimo,
procurando o exequível.

Tita - 20/03/2012

quinta-feira, 22 de março de 2012

Baby

Oh baby, please, 
não me acende. 
Não me beija assim, 
vê se entende. 
Não me dança assim, 
não me gira. 
Não me olha, 
não me pega, 
não me prende. 
Não baby, 
não diz 
que o que é 
não condiz. 
Que o que se queria
não se quer 
nem se podia. 
Baby, baby, 
não me embala 
não me pede pra cantar 
e nem me cala. 
Baby, baby, 
me sussurra. 
Não me bole,
só me fala. 

Tita
2011, algum dia

Tudo a ver
Os prazeres de se depender de alguém empalidecem perto dos medos paralisantes que essa dependência envolve
Alain de Botton em "Ensaios de Amor"

quarta-feira, 21 de março de 2012

Aquilo

O que você ia dizendo?
Eu não ia dizendo
Ia sim, eu escutei
Escutou?
É
Nossa, será que falei sem perceber?
Que você falou, falou.
E o que foi que eu disse?
Você deve saber muito bem o que disse.
Não sei
Pense bem que você sabe
Você não gostou do que eu disse?
Você acha que eu poderia gostar?
Mas se eu não sei oque eu disse...
Sabe sim, não se faça de boba. Você sabe muito bem!
Eu não sei. Porque, quer saber de uma coisa? Eu não disse nada! (Achou melhor ficar quieta. Será que teria dito aquilo em que sempre pensava mas não tinha coragem de dizer?)
Fugiu né?
Chega tá? 
Fugiu!

Tita
18/09/2012


Tudo a ver
"...no meio da tarde lenta demais, escolheu que - se viesse alguma sofreguidão na garganta, e veio - diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby"
Caio Fernando Abreu - "Anotações Insensatas" -  em "Pequenas Epifanias"

terça-feira, 20 de março de 2012

Descompassado

Desceu as escadas e andou até a praia. 
Manhã de sol, bem cedo. 
Hoje vai fazer muito calor...pensou. 
Tirou os sapatos e enterrou com gosto os pés na areia ainda fria. 
O corpo moreno, ai, não lhe saia da cabeça. A pele tão lisa...os seios, os abraços, os pequenos beijos, os lábios pedindo, querendo um beijo mais forte, mais longo, mais louco, maior. 
Chegou à beira da água, pés sentindo a espuma fina do final das ondas. Fina, leve, como o carinho suave no despertar. 
Caminhou com força, coração descompassado. 
Aiiii, esquecer a contenção, beijar mais forte, apertar com muita força o corpo dela junto ao seu, invadir sua boca, seus pedaços, suas entranhas. Tomar posse, possuindo-a até desfalece-la, assim, como se esta palavra existisse, como se fosse possível largar todas as amarras e extravasar o que queria, como queria, ai como queria! 
Entrou no mar e ficou boiando sem conseguir parar de pensar. Sem conseguir parar de querer, de imaginar... 
Um dia, pensou...um dia, sim, um dia... 

Vinhedo 17/3/2012


Tudo a ver
No teu rosto
competem mil madrugadas.
Nos teus lábios
a raiz do sangue
procura suas pétalas.
A tua beleza
é essa luta de sombras
é o sobressalto da luz
num tremor de água
é a boca da paixão
mordendo meu sossego.
Mia Couto em "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

segunda-feira, 19 de março de 2012

Amarelo

Os ipês estão floridos! 
Flores amarelas jogando luz no caminho ensolarado da manhã de sábado.

Ipês amarelos, nos caminhos quentes do norte, no quadro na casa da fazenda, na paisagem da cidade, na parede da sala aconchegante, na avenida da cidade grande, na estrada que  leva para longe, bem longe.

Ipês, no parque onde o menino passeava seu cachorro, no jardim do homem muito alto, na rua estreita da infância.

Os ipês estão floridos, os ipês estão floridos!
Chegam como mudanças alegres, bem vindas, novidadeiras. Trazem brincadeiras e leveza em dias cheios de cor.



Os ipês estão floridos, ele disse. Venha ver. 
Correu e então riram, juntos, da alegria de ver os ipês cheios de flor, cheios de cor, da alegria do rir juntos que o ipê lhes deu.


Os ipês estão floridos.
Sente- mo- nos à sua sombra, de mãos dadas, olhando o fim de tarde que surge na beira do rio, na frente do mar, no outro lado da avenida, na luz que bate nos carros rápidos, no alto da montanha.

A vida pode ser  leve e simples, à sombra de um ipê florido.


Os ipês estão floridos, venha logo.
Há um ipê florido dentro de mim.


Vinhedo,17/03/2012 

sexta-feira, 16 de março de 2012

Torto, torto, muito torto

Sabe um dia torto em que tudo esta torto e você se entorta? 
Quando parece que o mundo só fala o que você não quer escutar 
e só escrevem o que você não gostaria de ler? 
Já aconteceu de você querer escutar uma musica e bem aquela, bem nela, o CD estar arranhado? 
E por que será que os arranhões só aparecem no dia torto em que você esta torto?
Sabe quando você tem vontade de comer uma comida e bem neste dia está insossa e sem sal? 
E quando você pensa o que vai dizer, diz com cuidado, mas percebe que não conseguiu passar a mensagem? 
Sabe quando você sente uma irritação que vem do âmago? 
Aquela coisa que vem de dentro e toma todo o seu corpo e você até respira com dificuldade? 
Então a coisa ultrapassa o ponto de equilíbrio e não há nada que pudesse consertar.
Um desacerto geral, um torto total, um tortume sem igual.


Tita 16/03/2012

quarta-feira, 14 de março de 2012

Tocaia

Não sei os anseios da tua mente,
desconheço os tremores do teu corpo.
Não percebo os pensamentos que te ocupam,
nem decifro teus desejos escondidos.
Apenas espero, em ansiedade muda.
Como caçador escondido, aguardo que levantes voo.

Tita


Tudo a ver
"...se encontrar um belo movimento dos corpos, na falta de uma bela idéia para o espirito, então talvez  pense que a vida vale a pena ser vivida."
Muriel Barbery em "A Elegância do ouriço"

terça-feira, 6 de março de 2012

Cria



Tratava o que ainda não era
como se ja fosse
e, por não ter ainda sido,
o inventava
conforme seus desejos
e necessidades.
Então mergulhava na sua invenção e a vivia,
num mundo criado,
de fantasia.
E nela acreditava
e através dela historiava.
Mas pena...
só via sua propria cria
que na realidade do todo,
não se inseria.

Tita


Tudo a ver
"I go back and forth
Within the skies
Constantly, for
From the mountain where I make my home
The wind blows too harsh and strong."
Ariwara no Narihira

sexta-feira, 2 de março de 2012

Possibilidades


Não poderia lhe dar flores, pois que pressupunham fraquezas e, os espinhos, poderiam machucar.
Talvez devesse lhe dar uma ancora para que se prendesse e evitasse o mergulho impensado ao qual queria aventurar-se.
Uma corda para o resgate?
Poderia oferecer lençóis limpos que acolhessem após o cansaço da luta,
chaves para a libertação definitiva da obsessão ou, ainda,
um mapa para que pudesse  visualizar a infinidade de  caminhos possíveis.
Palavras de esperança...
O que mais poderia lhe dar?

Tita 02/03/2012

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Longe

Aqui, à meia luz.
Conversas ao longe, palavras esparças.
Só eu estou só?
O vento entra pela janela enquanto procuro mergulhar em um gole de sakê.
Musica ao fundo.
Aonde estará você enquanto o mar bate na areia da praia?
O que pensará você enquanto a brisa acaricia seu pescoço?
Aonde estou eu que apesar de aqui estar sinto-me longe, procurando por você?

Tita 19/02/2012

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Estremece

Alguma coisa me bole, alguma coisa me bole.
Bole?
Sim, me bole, mexe comigo, me tira do eixo
Sacode?
Não, não me sacode...Me estremece.
Explique.
É, como se eu girasse, como se eu suasse sem suar, como se eu cantasse sem cantar.
E?
É como se eu voasse em uma nuvem, assim, uma nuvem que me envolvesse e não me deixasse cair e me transportasse, tão longe, até que eu tocasse a linha do horizonte tão delicadamente, mas tão delicadamente, que uma força me percorresse toda e me fizesse descer da nuvem e voar, sem medo nenhum de cair.
Nossa! Você vê o que lá de cima?
Não vejo. Só sinto.
O que?
Esta coisa forte.
Qual?
Aquela que me bole, mexe comigo, me tira do eixo.
Sacode?
Não, não me sacode...mas me estremece, me estremece...
ai,ai,ai.

Tita - 17/02/2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Tempo


Historias passadas se mostram pelo trejeito dos labios, a maneira de mover as mãos, a colocação dos ombros.
Contando-nos um ao outro, decifro seus gestos,
transformando-os em tentativas de definição.
Branda e infinda a tarefa de catalogar sinais em incansáveis encontros,
cotovelos à mesa, ouvido enlevado.
Encontro-me outra, esta que aguarda, sem ousadia de movimento.
Refreio atitudes, receosa de assustar seu coração
Refreio sentimentos,temerosa de espalhá-los pelo chão

Tita 16/02/2012
Tudo a ver
And indeed there will be time...
...time for you and time for me
and time yet for a hundred indecisions,
and for a hundred visions and revisions,
before the taking of a toast and tea.
T.S.Elliot em "The love song of J. Alfred Prufrock"

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Fatal



 Esta coisa
O inesperado. 
O desprevenido, deconhecido e novo.
Intenso.
Esta coisa, sem nome ou descrição.
Uma tontura?
Um voo?
Aspiral, luz tremida, compasso destoante?
Sem explicação.

Tita - 03/02/2012

Tudo a ver
"Nenhum olho pode conter inteiramente nosso "eu". Sempre seremos cortados em uma ou outra área, fatalmente ou não."
Alain de Botton em "Ensaios de Amor"

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Vou

Vou sim voltar a escrever.
Quem disse que não vou?

Tita - 02/02/2012

domingo, 18 de dezembro de 2011

Tenue refugio


Como se fugir adiantasse,
abster-se amainasse a dor,
correr tornasse a chegada mais próxima
ou emudecer paralisasse o decorrer dos fatos,
parou
e,
como se frear abrandasse sentimentos,
fincou raízes,
fossilizou-se,
impenetrável.

Tita - 18/12/2011

Tudo a ver
"quando você abandona os delírios criativos, as fatasmagorias da imaginação, a realidade fica insuportável"
Julio Ramón Ribeyro em "diários"

sábado, 10 de dezembro de 2011

unhas

Descuidadas as unhas. Precisavam de corte, de lixa, de beleza esculpida.
Decidiu que cuidaria disto mas não fez movimento algum.
Lembrou-se de unhas acariciando a pele levemente, como borboletas.
Arrepiiiooo...
Era quando havia sol e borboletas coloriam o caminhar e, o simples viver em estado de transe causava, por si só, o arrepio.
Como asas de borboletas que um dia haviam roçado o rosto, o corpo, o dia.
Como movimento do corpo que roçava o ar.
Tita 10/12/2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Argh!!!


Tomamos tequila,e conversamos bastante
Ah!
Fiquei contente. Ando contente...
Sei.
Tenho achado graça nas coisas, assim, do nada. Sabe como?
Sei.
Ai, que chato, você não fala nada!
Uai, não estou falando?
Falando como se não falasse.
Nossa, como você é difícil!
Não acredito! Eu sou difícil?
Esquece, vai!
Mas esquecer o que?
Vai tomar sake, vai.
Sake?
argh!

Tita - 07/10/2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ambiguo


Sou duas, não uma.
No dia não caibo,
vida unica não vivo,
repetir-me não sei.
Sou verão e inverno,
céu e inferno.
Feita de soma,
por me dividir.

Tita 20/09/2011

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Desvanecer

Não sei o que me fez
parar de tecer o tempo.
Sei que,
a vê-lo passar,
não o teço
e aos poucos,
sem tece-lo,
esmoreço.

Tita - 08/08/2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

Regime

Escrever, escrever.
Isso. Escreva
Não dá
Por que?
Sem assunto
E precisa assunto para escrever?
Mas se não for um assunto, escreve-se sobre o que?
Uma coisa, por exemplo...
Uma coisa?
É, escreva, por exemplo, sobre uma palavra
Difícil. Que palavra?
Por exemplo: escreva sobre a palavra regime
Escrever sobre regime?
É. Regime.
E o que eu escreveria? Eu poderia escrever que seria bom fazer regime de você.
De mim? Como assim?
Ah como é bom fazer regime de pessoas. Regime de ver pessoas e escutar pessoas que ficam insistindo para que façamos coisas que são difíceis de se fazer naquele momento.
Vou fazer regime de você. Porque você insiste para que eu escreva, porque você fica aí repetindo, porque você quer me forçar a uma impossibilidade momentânea que deveria respeitar.
Vou fazer regime da sua voz e das suas palavras. Porque você fala demais e fala palavras que não são macias e nem gostosas de escutar.
Vou fazer regime das suas palavras gordas e pesadas que caem sobre mim como chumbo. Eu chuto as suas palavras como bolas mas elas voltam, bolas pesadas, e voltam e voltam.
Ai que regime bom que vai ser não ter mais as suas palavras me dizendo coisas.
Pronto.
Viu? Escreveu ou não escreveu?
Tita - 19/07/2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Ciúme

Quando viu, sentiu a avalanche que tomava conta de todos os órgãos, turvava os olhos, embotava os movimentos. Dizer o que? O cérebro não respondia. Lentamente procurou uma cadeira, tateando, quase cega. Sentou-se e olhou sem ver, coração disparado, mão à frente da boca segurando alguma coisa parecida com vomito, soluço, grito? Gritar seria humilhante, vomitar degradante, chorar não. Não choraria.
Sem ação.
Talvez parecesse plácida para quem a visse. Semblante adormecido, mãos caídas sobre as coxas. Ah se soubessem o que estava sentindo!!!!
Se pudessem fotografar todo o reboliço do de dentro!
Mas o trunfo era este. Não podiam e nunca saberiam pois não diria a ninguém.
Ficaria ali. O ciúme roendo, roendo, comendo cada pedaço,
até o fim.

Tita – 01/07/2011

Com os agradecimentos à querida Sylvia Loeb que me intimou a escrever.

terça-feira, 21 de junho de 2011

musicando


tractaracutac. tractaracutac
pa paraparará
paparaparará
tractarac
tractarac
papa rapara rará!!!!

Tita - 21/06/2011



segunda-feira, 6 de junho de 2011

Pessoas

Talvez não se esqueçam as mágoas e os fatos.
Talvez, a cada vez que se lembre dos acontecimentos, venha uma onda de tristeza forte, uma dor no coração, um respirar dolorido, uma mágoa inesquecivel e profunda.
Porem as pessoas, as causadoras das tristezas e dos fatos, são falhas e passíveis, como todos nós, de tantos e tantos erros.
Então é certo esquecer que foram as causadoras dos fatos que nos doeram, doem e até poderão doer eternamente.
É o certo.
Tita - 06/06/2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Tapete

Foi-se embora o tapete e com ele a história das velas acendidas,
das tábuas com pedaços de queijos,
das velas em mesinhas rentes ao chão.
Quanta musica e quantos sussurros o tapete levou,
quantos abraços e copos e casos contou,
quantos sentires embalou...
Foi-se o tapete.
Ai que saudade
do tapete, 
de ti,
de ti no tapete,
do tapete em ti,
de ti sem tapete,
do tapete com ti,
saudade de ti,
saudade de ti.
1/06/2011