Mostrando postagens com marcador tudo a ver - Caio Fernando Abreu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tudo a ver - Caio Fernando Abreu. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de maio de 2015

Menino

Eu sei que você é lindo 
Porque um dia vi o menino macio e doce que hoje se esconde.
Por ele, transbordei de carinho e amor e o abracei e pedi que me enlaçasse a cintura.
Quando veio o grande vento, meu menino fugiu e nunca mais se deixou ver.
Que saudade tenho dele e de quando, a brincar, me mordia as orelhas 
e então, 
com sua pele macia, 
se aninhava em mim.

Tita
30/05/2015

Tudo a ver
“De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa, que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você, sem dizer nada só olhando e pensando: “meu Deus, mas como você me dói de vez em quando…”
Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Distante

Onde teus olhos que com musica choravam?
Onde as palavras que, vindas de ti, em nós transbordavam? 
E teu riso de menino, tua falta de jeito, teus olhos azuis e tuas costas curvadas?
Que mar te acolherá, de mim tão distante?

Tita - 16/07/2014


Tudo a ver
Não, meu bem, não adianta bancar o distante: lá vem o amor nos dilacerar de novo"
Caio Fernando Abreu em "Pequenas Epifanias"  - Extremos da paixão.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Sorriso da Lua

https://www.flickr.com/photos/prima_stella/
Não me lembro de quando ou onde nos conhecemos.
Gosto de imaginar que foi em um fim de tarde, caminhando na praia, um indo, o outro vindo, barulho do mar, os olhos se cruzaram, sorrimos...
Ou teria sido em uma festa com musica ao fundo, cada um pensando em sua própria vida, a música tocou a ambos, os olhos se cruzaram, sorrimos...
Ou ainda em um bar movimentado, noite alegre, bebida no balcão, risada alto, os olhos se cruzaram, sorrimos...
Só sei que sorrimos e os sorrisos criaram o encantamento. Então decidimos andar na mesma direção na beira do mar, ou dançar juntos na festa, ou ainda beber do mesmo copo ou simplesmente nos sorrimos e ficamos dentro de nossos olhos?
Só sei que o encontro dos nossos sorrisos instalou-se em mim, explodindo sensações. Mergulhei no mar? Dancei muito? Bebi além da conta? Ou apenas me afoguei em nossos olhos?
Não me lembro de quando ou onde nos conhecemos mas de nossos olhos e do seu sorriso não me esqueço.
Não me esqueço,
não me esqueço.

Tita - 21/02/2014


Tudo a ver
"Sonhei que você sonhava comigo. Ou foi o contrário? Seja como for, pouco importa: não me desperte, por favor, não te desperto"
Caio Fernando Abreu em "Pequenas Epifanias"

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Mudança


Peguei a escova de dentes mas deixei o vidro de shampoo e o sabonete líquido.
Propositalmente esqueci-me de um pé daquela meia branca com o desenho da Nike em azul.
Levei as roupas mas deixei uma bolsa.
Os sapatos, levei todos.
Peguei meus papeis, minha caixa de recordações e os livros porem, deixei dois, com frases marcadas e observações escritas a lápis, em muitas páginas.
Não levei objetos, nem filmes, nem musicas.
Esvaziei as gavetas, guardei os remédios, deixei alguns cabides.
Fechei a porta e sai.
Sorri um sorriso torto, um só pensamento: encontrando tudo o que deixei, ele se lembrará de mim.
Ele se lembrará de mim?

Tita - 11/02/2014

Tudo a ver
"Todo atento para não errar, errava cada vez mais"
Caio Fernando Abreu em "Pequenas Epifanias "

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Incomunicável


Na incomunicabilidade em que vivia, chegava a pensar que emudecera.
Dissociava lembranças de palavras pronunciadas em outra época.
Talvez não soubesse mais como se expressar através dos sons...
Deve ser assim uma clausura, pensou. Estava em uma mesmo que fosse sem grades e sem portas.
Começara com um simples recolhimento - são fases, constatou. Logo volto ao burburinho das ruas.
Mas o emparedamento sem paredes continuava, o ostracismo silencioso tornava os pensamentos inaudíveis, o desterro do lá de fora era fato e parecia duradouro.
A fuga havia acontecido, mesmo que não tivesse corrido, ou se escondido, ou ido a lugar algum.
O exílio estava dentro de si mesmo e contra ele era difícil lutar. Sendo assim, calou-se e se deixou ficar.
Tita 17/02/2013

Tudo a ver
Ninguém pode ajudar o humano que deu errado quando o social está errado, e para resolver o de dentro seria necessário corrigir o de fora. E então quem somos nós, tão impotentes e arrogantes?
Caio F. em "A vida gritando nos cantos".

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Imagens perdidas


As imagens de 2010, 2011 e 2012 foram perdidas.
Fui tomada de uma tristeza profunda, um vazio, fiquei como que despida de mim mesma, quase nua. Mais ainda ao descobrir que a culpa foi minha, deletando o que não deveria. 
Ao mesmo tempo, as imagens de 2008 e 2009 foram salvas o que me faz ainda acreditar que sou uma pessoa de sorte porque 2009 foi um ano de grande importância para mim.
Vou pacientemente recuperar cada imagem perdida ou até rever e colocar novas.
Assim retomo estes últimos anos, passo a limpo, repenso, repagino, modifico, embelezo o blog novamente, melhoro seu conteúdo e, quem sabe, o meu próprio?
Tita 10/10/2012


Tudo a ver
"...porque havia todo um processo de despir-se de conceitos anteriores, de barreiras e resistências, para poder compreender. Isso levava horas. Levava horas o despir-se"
Caio Fernando Abreu em "Caio 3D"

sábado, 14 de julho de 2012

Lentes cor de rosa


Há um momento em que o desenho se define;
em que a realidade se mostra nítida, 
sem borrões ou nuances.
Momento da constatação; 
da retirada das lentes cor de rosa 
que procuram a todo o custo, 
enxergar o que não se mostra.
Momento duro e estático, 
em que o quadro se torna claro e sem sombras.
Mas então a resistência em colocar a moldura, 
achar o melhor lugar na parede e congelar a realidade...
Procuramos em vão melhorar as cores 
e esfumaçar as quinas da pintura mesmo sabendo 
que em nossa aflição, a arruinaremos,
e o quadro não se salvará.


Tita 14/07/2012

Tudo a ver
"Exercitam o desprezível nos escombros da jangada 
que gira e gira em torno de si mesma, 
sempre no mesmo ponto inútil, 
em direção a coisa alguma, 
enquanto o tempo passa e tudo vira nada."
Caio Fernando Abreu em "Pequenas Epifanias"

foto: Erica Becker -  http://www.flickr.com/photos/ericabecker/4643786216/sizes/m/in/photostream/

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Ponto



To com medo.
Só isso.
Tita - 16/05/2012


Tudo a ver
"Escuta bem, vou repetir no teu ouvido, muitas vezes: a unica coisa que posso fazer é escrever, a unica coisa que posso fazer é escrever"
Caio Fernando Abreu em "Pequenas Epifanias"

foto: Naiara Fouraux
http://www.flickr.com/photos/naiarafouraux/4761032565/sizes/m/in/photostream/

quarta-feira, 21 de março de 2012

Aquilo

O que você ia dizendo?
Eu não ia dizendo
Ia sim, eu escutei
Escutou?
É
Nossa, será que falei sem perceber?
Que você falou, falou.
E o que foi que eu disse?
Você deve saber muito bem o que disse.
Não sei
Pense bem que você sabe
Você não gostou do que eu disse?
Você acha que eu poderia gostar?
Mas se eu não sei oque eu disse...
Sabe sim, não se faça de boba. Você sabe muito bem!
Eu não sei. Porque, quer saber de uma coisa? Eu não disse nada! (Achou melhor ficar quieta. Será que teria dito aquilo em que sempre pensava mas não tinha coragem de dizer?)
Fugiu né?
Chega tá? 
Fugiu!

Tita
18/09/2012


Tudo a ver
"...no meio da tarde lenta demais, escolheu que - se viesse alguma sofreguidão na garganta, e veio - diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby"
Caio Fernando Abreu - "Anotações Insensatas" -  em "Pequenas Epifanias"

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Ta-tu-ra-na


A primeira lembrança era a de uma taturana verde claro, movendo-se lentamente sobre uma folha verde escuro.
A folhagem forrava um muro bem mais alto do que ela mas, a taturana, estava na altura dos olhos.
Sabia que não podia encostar o dedo, a avó dizia que taturana queima, tinha tanta vontade de pegar!
Passou horas olhando o movimento do corpo comprido, devia cansar aquele mover-se com tantas perninhas, ela só tinha duas e não andava deitada, andava de pé. Gente andava de pé e gente, quando não andava de carro ou bonde, ou onibus ou sei lá, andava a pé.
A-pé.
Ah, gente também entrava pela porta de um avião e voava junto com ele.
A taturana ia devagar passando pelas folhas. Alguém chamou, fingiu não escutar, queria ver aonde iria aquela coisa estranha e linda e aflitiva em que não se podia mexer. O fim daquele caminhar de mil perninhas nunca chegava...
Pegou um galhinho, cutucou de leve. A taturana parou. Cutucou de novo, o bichinho encolheu juntando todo o corpo. Ficou metade do tamanho! Que interessante...
Esperou um pouco, cutucou de novo, colocou o galhinho na frente, abaixo, ao lado...ai, ela grudou no galhinho e veio com ele ai, ai que medo, vai chegar até a minha mão, largou tudo, quase caiu no pé descalço, pulou para traz e agora, taturana no chão, alguém pode pisar ou ela, de vingança, vai entrar em casa, vai até o meu quarto, vai subir na minha cama, vai me queimar!!!
Correu, pegou uma vassoura, empurrou, bateu, bateu, bateu, empurrou para dentro do canteiro de terra, nem viu se morreu ou não, largou a vassoura, correu, correu, chorando, chorou, chorou, soluçou, perguntaram o que foi, nunca disse.
Tita
27/04/2011

Tudo a ver
"Porque ver é permitido, mas sentir já é perigoso. Sentir aos poucos vai exigindo uma série de coisas outras, até o momento em que não se pode mais prescindir do que foi simples constatação."
Caio Fernando Abreu em "Caio 3D"

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Cadê?

Sim, eu estou aqui. Andei procurando inspiração mas voltei sem ela.
Se você souber aonde está, não deixe de me dizer.
Tita - 21/09/2010

Tudo a ver
"Ciclo seco não desaba de repente sobre alguém; chega aos poucos, insidioso, lento. Quando se percebe que se instalou, geralmente é tarde demais. Já está ali. É preciso atravessá-lo como a um deserto quando se está no meio e a água acabou."
...
"Só que passa, por ser ciclo, e por ser da natureza dos ciclos passar"
...
"É preciso paciência. E contemplá-lo distante como se estivesse fora dele, e fazer de conta que não está ali para que, despeitado, vá-se logo embora e nos deixe em paz."
Caio Fernando Abreu - Pequenas Epifanias - Breve introdução ao estudo do ciclo seco.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Tão


Nós tão diferentes
e, num momento, 
tão iguais.

Correndo atrás dos beijos na rua,
roubando carinhos nas entrelinhas,
surrupiando abraços 
em momentos esparsos,
nos apaixonando tão sofrido!

Tão longínquos e tão perto,
nos podendo em tão poucos,
e tão pequenos momentos!
Nunca o suficiente,
sempre menos,
nunca mais.

Você e eu.
Eu sempre,

tão cá
e você sempre, 
tão lá!

Tita - revisto em 28/06/2010


Tudo a ver
"Corria a certeza que, se quisesse mesmo chegar lá, você dava um jeito e acabava chegando. Só uma coisa era fundamental (e dificilima): acreditar."
Caio Fernando Abreu em "Uma história de fadas" - Pquenas Epifanias 

foto: Não te esqueças de mim: Jorge
http://br.olhares.com/nao_te_esquecas_de_mim_foto3596340.html

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Afinidade

Gostamos de praia, os dois, do sol nos esquentando, 
de mar morno no fim do dia e da moleza que dá depois. 
O jeito de falar se parece, ao trocar mesmos pensamentos. 
A poesia nos cai sempre bem, ao sabor dos nossos momentos. 
Parece que ficamos quietos, com a mesma intensidade
e quando nos irritamos, temos o mesmo teor de maldade. 
Somos afins nos sonhos, e também na felicidade.
Deve ser este o motivo de termos tanta saudade. 
Tita 18/07/07 

Tudo a ver 
"Enquanto eu te via nascia um jardim nas minhas faces" 
Caio Fernando Abreu em "Caio 3 D" - "A Quem Interessar Possa"

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

M'estremece

Envolve meu corpo minh'aura minh'alma; 
deixa-me tonta m'enternece me bole; 
apossa-se m'envolve me toma; 
arrebata-me faz-me destemida e louca;
 então flutuo perc'o chão o rumo e a razão.
Tita 28/08/2009 
Tudo a ver
"Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doérá muito mais - por que ir em frente? Melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, um lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia - qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber porque."
Caio Fernando Abreu em "Inventário do Ir-remediável" - Caio 3D

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Saxofone


Ele gostava de dizer que era seu mentor musical. Ela aceitava e sorria um sorriso intimo, desses que a gente sorri para si mesmo e não demonstra pelo lado de fora; desses que a gente disfarça e que fazem um bem enorme porque se espalham pelo corpo fazendo vibrar cada pedacinho de pele, cada órgão, cada tecido interno. Assim ela gostava de sorrir quando ele dizia isso.
Não queria que ele se sentisse muito importante com seu posto de mentor. Gostava que ficasse na duvida se ela concordava ou não e a cada vez que dizia de novo, ela fazia essa cara de quem nada sentia e por dentro vibrava e ficava contente com o fato dele ser a pessoa que mostrava a ela todas as notas, percebia exatamente o que ela gostava, prestava atenção no que ela dizia a respeito de cada frase musical. Ela gostava destas minúcias nele e das minúcias que ele percebia nela e se encantava com as coisas nele que o faziam diferente das outras pessoas do mundo.
Uma pessoa única era ele que, de tão única na imaginação dela, quase se tornava um instrumento. Por vezes podia ser um violino com notas melodiosas e carinhosas, por outras um violão alegre, havia dias em que era um pandeiro agitado e outros em que se tornava uma piano a soar num fim de tarde. Mas os dias que mais a encantavam eram aqueles em que ele se tornava um saxofone e ela o escutava ao longe e cada vez mais perto, a cada passo um acorde mais alto, ele vinha chegando, vinha aos poucos e ela se tomava pelo molejo do som, seu corpo vibrando, seus ouvidos ouvindo apenas a ele e mais nada, seus movimentos seguindo a musica e então ela se abandonava, se rendia, se perdia olhos nos olhos, misturava-se no sopro que soprava o instrumento, imiscuía-se, se entregava e se dava toda, completamente, a ele.

Tita 13/4/2009
Tudo a ver
"A presença do outro latejaria a teu lado, quase sangrando, como se o tivesses apunhalado com tua emoção não dita."
Caio Fernando Abreu em "Morangos Mofados - NATUREZA VIVA"

terça-feira, 19 de maio de 2009

Sedução

foto: Orley Antonaglia
Não era esperado.
Mas aconteceu
passo a passo.
Um roçar de dedos,
um sorriso malicioso,
um encostar de joelhos,
uma palavra picante.
Após um segredo sussurrado,
o quase beijo,
o arrepio.
Muitas histórias contadas
com fala mansa,
com voz intima.
Quando me dei conta estava tomada
pelo inesperado.
Sentimentos borbulhando,
ansiedade tomando conta,
vontade, premência, urgência
do contato,
do tato,
do sentir os sabores.
Fui com pressa,
com paixão fui,
fui!
05/10/06
Tudo a ver
"Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados."
Caio Fernando Abreu em "Pequenas Epifanias - Sugestões para atravessar agosto"

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Pedregulho

Ouvi e li a fala de nosso presidente outro dia sobre as pessoas brancas de olhos azuis, aquelas que são responsáveis pela crise, indabem tenho olhos castanhos que algumas vezes até se tornam verdes mas nunca, nunca azuis e sou até branca mas a praia tem-me tornado um pouco morena, mais um motivo por não ter sido eu a causar crise alguma. Fiquei com as palavras lidas e ouvidas na cabeça martelando e martelando e andei com o presidente (esse que escolhemos), na minha mente esses dias e deve ser por isto que minha cabeça também tornou-se um disparate e andei criando imagens um pouco estapafúrdias. Imaginei a carreata presidencial em carros abertos no calor do nordeste, o presidente com chapéu desses que vira e mexe ganha por ai, muitos brancos ao lado dele, acenando para o povo (não sei porque esta imagem) e ainda me ocorreu que enquanto o carro andava rápido o povo descalço seguia atrás acenando, sorrindo e gritando presidente! presidente, o carro levantava os pedregulhos do caminho e os jogava com força nos olhos, na face, no corpo daqueles que não causaram a crise. Cada coisa que a gente pensa! 15/04/2009. Tudo a ver "E quase admirei a sua capacidade de comandar as reações daquela manada bruta da qual, para ele, eu devia fazer parte, presa suculenta, carne indefesa e fraca." Caio Fernando Abreu em "Morangos Mofados - SARGENTO GARCIA"

segunda-feira, 23 de março de 2009

ÊXODO

Sentavam-se todos na mesma sala e na maioria das vezes nada diziam. Mas voltavam sempre, porque ali sentiam-se flutuar. Ela preferia a musica bem alta. Gostava dos acordes que pareciam penetrar seu corpo, faziam tremer sua pele, tomavam todos os seus sentimentos. O que gostava mesmo era de escutar e não pensar em mais nada. Só na musica, deixando que os caminhos da mente percorressem o que os acordes ditassem. E como percorriam! Deixava-se ir pelos atalhos, pelas avenidas, pelos becos e os sentimentos iam tomando conta, um de cada vez. Não raro as lágrimas escorriam, o coração disparava, sentia dor profunda e quantas vezes jubilo, um jubilo que extrapolava e então levantava-se e dançava, dançava, olhos fechados, par imaginário ou nenhum, dançando, deixando a musica conduzir. Nem via que havia outros ali. Provavelmente nenhum se via, todos levados pela musica que delicia que era juntar pessoas que gostavam da mesma coisa e podiam ficar assim lado a lado fazendo juntos o que cada um fazia por si só. Quando a musica parava olhavam-se, olhos de lágrimas, olhos sorrindo, olhos tristes, olhos opacos, olhos nada, fosse o que fosse, sentiam-se todos mais irmãos. Às vezes conversavam ou apenas se tocavam e sorriam no silencio enquanto alguém colocava outra musica, às vezes só se olhavam e nada mais era necessário porque sabiam que se entendiam e sabiam que estavam juntos porque comungavam aquela entrega à musica e sabiam que seguiriam aonde a musica os levasse, todos no mesmo caminho, indo sempre para longe, cada vez mais longe, sabendo que iriam para sempre e sempre, juntos.
23/03/09
Tudo a ver
"A moça de óculos disse que sentia muito, mas infelizmente naquela noite não podia baixar o volume do som, não era uma noite como as outras, era muito especial, e perguntou se o síndico não sabia que Urano estava entrando em Escorpião."
Caio Fernando Abreu em "Morangos Mofados" - "O Dia que Urano Entrou em Escorpião"

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O fim da praia

Série Juquehy - escritos ao mar

Dizem que de um lado até o outro da praia são cinco quilometros, ida e volta. 
Temos percorrido esta distância de duas (no minimo) a tres vezes por dia, fora o que andamos na rua quando necessário. 
Um dia vi uma senhora que rezava apoiando o corpo em suas duas mãos, em uma pedra grande, no final da praia. Meus pensamentos voaram enquanto a olhava, quero rezar lá também! 
Hoje encontrei a pedra vazia e lá encostei o peso do meu corpo em minhas duas mãos, firmemente, na pedra grande. Então pedi a Deus que me ajude a não sofrer tanto para tomar decisões e que as que iniciaram este ano tenham sido acertadas e senti a pedra com as mãos, os pés firmes na areia. Pedi força para meus filhos, para mim, para os que me são queridos e então eu soube: sou forte quando deixo que o mar me renove, me perdoe os erros e me purifique; sou firme quando entrego minha solidão à sábia natureza pois preciso dela; sou correta comigo mesma quando defino o que mais me assusta; respeito o sentimento dos outros e me importo (muito) com os sentimentos que causo; e sou pedra dura de coração mole porque por amor me derreto toda. 
Haverá quem me recolha o derretimento e dele se aposse, como uma pedra.
Juquehy, 03/01/2009.
Tudo a ver
"Pensamentos assim são um sintoma do avesso. E o avesso é a superfície correspondente, igual em tamanho e forma, a tudo aquilo que você considera o direito. Conhecer de-cor-e-salteado o direito absolutamente não dá direito a conhecer também o outro lado. Sinto muito, mas ele sempre está lá. Incognito, invisivel inviável. In, enfim."
Caio Fernando Abreu em "Pequenas epifanias" - "Lição para pentear pensamentos matinais".

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Capricórnio


Série Juquehy - escritos ao mar

 


Era 1999 e havia um mar em uma praia que se chamava Capricórnio. 
Jamais esquecerei nós dois naquele fim de dia, com o mar que se mexia, o corpo a balançar conversando, conversando, você lá e eu cá, eu cá e você lá. Isso no mar que Capricórnio se chamava mas como pôde tanta coisa acontecer depois desse começo de balanço de mar morno? Houve o beijo de susto e o negar do beijo e o dedo do pé que se quebrou e a viagem através da serra, coração disparado de amor novo anunciado. Destemido, maluco, ousado, paixão louca faz tanto, tanto tempo! E então é sempre o mar que traz de volta 1999, 2000, 2001 e sempre você no mar e um dia inda tiro o mar de você e vai ficar só meu não dou, não devolvo mais mas por que será que você se apossou e ninguém toma o mar de Capricórnio e aonde, aonde está aquele você e o que era eu e o que éramos nós, depois de tanto, tanto tempo? 

Juquehy, 03/01/2009 

Tudo a ver 
"De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação?" 
Caio Fernando Abreu em Pequenas Epifanias - "Anotações Insensatas"