terça-feira, 30 de setembro de 2008

IMPREVISTO - conto premiado

Foi quando ele disse: “não quero mais esse negócio de você longe de mim” que a coisa se complicou. 
Como assim?
Então tenho que ficar grudada nele o dia inteiro? E o que vai ser da minha vida, minha carreira, minha realização, minhas coisas? E eu? E eu? Como podia dizer uma coisa dessas? Entrei em parafuso. 
A partir daquele momento, tudo o que ele dizia era como uma flecha certeira dirigida a mim. Me esquivei. Ele pensa que me pega!!!! 
Fiquei arredia e, sem explicações, passei a trabalhar em dobro. Não vou deixar que ninguém me coloque numa situação de dependência! Porque não deixa ele de fazer as viagens que precisa, de trabalhar até tarde e de se meter na minha vida? Porque? Não poderia ter me dito uma frase mais terrível. 
Tentou se explicar. Não foi neste sentido, eu só queria ficar mais tempo com você, eu gosto da sua companhia, eu te quero tanto! 
Depois da luta para conseguir uma posição, iria eu regredir a este ponto de ficar seguindo os passos dele? Não, eu não! 
Não precisa ficar grudada em mim, não é isto, disse ele! Por favor, não me entenda mal! 
Ele pensa que me pega? 
Aceitei novos desafios, dobrei o numero de viagens. Tinha de mostrar a ele que a empresa precisava de mim, eu era importante, eu não precisava dele. Eu, mulher incrível, moderna, executiva, inteligente. Eu! 
Ele, continuou sua vida, seu ritmo, seu trabalho mas aumentou seus momentos tranqüilos em casa. Eu, estava ali cada vez menos. 
As leituras lado a lado no sofá não mais aconteciam, o escutar das musicas de nós não mais fazia parte das noites. A frase tinha sido um marco em nossas vidas, uma decepção. 
Ele sabia. Talvez por isso, nos poucos momentos em que nos encontrávamos, ele nada dizia. 
Ele sabia! Apenas me olhava. 
Pensa que não percebo o olhar de recriminação? Pensa que não percebi no que você quer que eu me torne? 
Eu ia provar a ele, eu ia dizer a ele, eu ia mostrar a ele. E quando visse de tudo o que eu era capaz ele se recriminaria para sempre pelo que tinha pensado em fazer com nós dois. 
Imbuída desta força fui em frente, sem vacilar, sem descansar, sem parar. Será que ele ainda pensa que me pega? 
Numa noite de primavera cheguei mais cedo em casa. Tudo quieto demais. No quarto, portas abertas e o armário vazio. A escova de dentes, o barbeador, o roupão atrás da porta, tudo se fora. Ele se fora. 
Deixei meu corpo cair no sofá e meu olhar perdeu-se estático, no vazio. E agora? 
Estranhamente, fui assaltada por uma sensação de paz. Tomou meu corpo, esquentou meu coração, e meus lábios sorriram como há muito não acontecia. Abalada compreendi. 
Ele sabia! 
Inconscientemente eu planejara este desfecho e viver longe dele fora, desde o inicio, meu único objetivo. 
Peguei o telefone, desmarquei a viagem do dia seguinte e comecei a planejar minhas férias. 
Publicado no jornal O estado de São Paulo em 19/07/2008

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Pequenez

Na grandeza de teu abraço sem perguntas, 
minha pequenez se faz enorme e sigo, 
desconhecida por ti, 
a pesquisar teus caminhos. 
Entrego-me, despojando-me de dores, 
ao ventre de tua casa em musica, 
a arrepiar-me em arpejos tocantes,
em troca de palavras, 
na profusão de instantes. 
Enquanto, como vinho, 
nos sorvemos aos goles, 
abandono-me ao teu abraço forte 
enrosco meu corpo em tua cama grande, 
e encontro, em teu peito, 
calmo aconchego. 
Num sussurro, 
peço que me leves contigo 
por caminhos teus conhecidos 
e deixo que me faças ousada e amante 
no teu leito entremeado de flores, 
na maciez de teus cobertores
29/09/2008

Vazio

Talvez seja necessário sentir um sofrimento enorme, daqueles que faz perder o fôlego, dispara o coração, faz pular lágrimas incontroláveis.
Talvez seja necessário ficar pasmo. Petrificado, sem ação, sem credulidade alguma. Sentindo o ar que entra pela boca aberta, tomando conta de um buraco incrédulo dentro de todo o corpo.
Talvez seja necessário sentir a morte dos entes queridos que arranca de nós a presença reconfortante e deixa um eterno não entender o porque e um permanente hiato nas relações com o mundo.
Talvez seja necessário perder amizades que confortavam e completavam, restando uma mágoa profunda que toma conta de todos os cantos internos e externos.
Talvez seja necessário perceber a falta de entendimento e compreensão quando o que dizemos bate no outro de uma maneira completamente contrária ao que queríamos dizer e fica a certeza de que não existe explicação que ocupe o silencio repleto da triste constatação de não existir palavra alguma possível de fazer-se entender.
Talvez seja necessário perder grandes amores, que se vão depois de ter acalentado, embalado, ocupado todo o espaço, deixando um oco tão avassalador que não prevê o vislumbre de qualquer possibilidade de renovação.
Talvez seja necessário sentir um vazio.
Daqueles que aperta, espreme, torce, machuca, abre feridas e não deixa sobrar nada.
Talvez, tendo passado por tudo isso seja possível buscar forças e criar raízes dentro do escuro. Talvez aos poucos as raízes crescerão e se espalharão criando folhas, frutos e flores.
Talvez seja possível, afinal, reocupar o buraco escuro e oco e enfim, renascer.
Algum dia, talvez.
07/11/2006

sábado, 27 de setembro de 2008

Estranho

Existem pessoas estranhas.
Que fazem coisas estranhas.
Existem pessoas que dizem
que outras pessoas fazem coisas estranhas,
mas não ousam contar
que coisas estranhas as pessoas estranhas fazem.
Não sei por que pessoas estranhas
fazem coisas estranhas
com pessoas que, ao menos a mim,
não parecem estranhas.
Pode ser que algumas pessoas
que não parecem estranhas,
sejam estranhas.
Eu fico sempre curiosa.
Queria saber o que as pessoas estranhas
fazem de tão estranho,
que as pessoas que não me parecem estranhas,
estranham,
comentam,
mas não contam o que é.
Talvez seja estranho
ficar curiosa dessa maneira.
Se eu fico curiosa e,
se ficar curiosa pode ser estranho,
então sou estranha também.
Mas estou super curiosa para saber,
o que em mim é estranho.
Que estranho!
09 de março, 2005

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Da visão das coisas

Há momentos em que as coisas se transformam e não se conta, pois ninguém acreditaria.
Aos poucos, procura-se mostrar a realidade. Mas como mostrar?
Ninguém vê as coisas da mesma maneira.
Eu, Por exemplo, estou vendo as nuvens embaixo dos seus pés e os móveis que voam por sobre a sua cabeça, sem atingi-la.Precisei pular para alcançar uma poltrona.
De qualquer maneira, foi bom conseguir pegá-la para poder sentar-me e procurar analisar o que acontece.Você não se importa e parece estar feliz enquanto os móveis, e também as coisas do mundo, passam a voar.
Seria a força do seu pensamento? Ou um capricho da natureza?
As coisas passam pelos seus olhos sem que você tenha que se esforçar para vê-las e, a seu modo, você acha que viu tudo. Com um sorriso. Enfeitiçado.
Eu viro a cabeça para todos os lados e fico com medo de que algo me atinja.
Porque será que você faz tudo voar?
Pulo novamente e seguro um caderno e um lápis. Pelo menos assim sinto-me mais segura.
Acho que você não precisa de nada completamente seu para sentir-se seguro e decidiu ficar sempre ali, enquanto as coisas voam.
Eu, da poltrona, assisto a tudo, pasma.
09 de dezembro de 2004.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Salsa

O molho tinha que ter salsa, ela dizia. Sem salsa não seria igual.
Cansativo picar. Ela dizia que se não fosse bem picado, não teria o mesmo gosto.
Então picava e picava e lá vinha ela: ainda não está bom, pique mais um pouco.
Pensou que quando crescesse, faria tudo sozinha. Ou melhor, se alguém quisesse ajudar, aceitaria que picassem como quisessem. Salsa tem o mesmo gosto, picada maior ou menor.
Lá vinha ela de novo: quer uma faca melhor? Que demora!
Então concentrou-se e picou. Minimamente, minuciosamente, incansavelmente.
Quando veio de novo, ela gostou.
Assim sim!!!! Está vendo como você sabia?
Almoço servido, chamaram a todos.
Sentou-se à mesa e lembrou-se da faca, da salsa e do som da voz dela dando ordens.
Que oportunidade perdida, pensou, de sentir-se útil e feliz.
Perdeu a fome.
Levantou-se e, sem olhar para trás, deixou a sala.
03/12/2007

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

POETA CONVIDADO - Sylvia Loeb

Enquanto não me acho e não me escrevo, enquanto naõ me digo, não me sei e não me quero ontem e nem hoje, aqui não me coloco. Na falta de mim, mais uma vez Sylvia.
VAI LÁ
Vai lá você me disse Sem dizer o que eu ia encontrar Vai lá você repetiu Me dando coragem para eu chegar lá. Cheguei lá e encontrei você enrolada num soluço de dar dó, toda nua, toda triste cheguei perto, você sorriu disse que o que eu estava vendo não estava vendo que você estava feliz, que o soluço que ouvi foi só um espirro e me convidou para dançar.
06/09/2008
Sylvia Loeb

POETA CONVIDADO - Sylvia Loeb

Sylvia, sempre bem vinda, mais duas vezes. GANGUE
Eles se reúnem todas as noites na esquina de minha casa. Preferem as noites de lua, frio ou calor, não importa, mas se animam mais no verão. Eu também. Fico olhando, com uma vontade danada de me enturmar, mas tenho medo, pois vêem para cima de mim, aos atropelos, não têm muito cuidado, até já me derrubaram. É tudo brincadeira - parece - brincadeira de gente jovem e pouco responsável, sei que não fazem por mal, mas me assusta. Chegam perto demais, ruídos estranhos, uns até chegam a encostar em mim. Outros mais ousados, não disfarçam, aspiram meu aroma. De vez em quando fico corajosa. Acontece alguma coisa que perco o medo, a aventura me chama, gosto que me cheirem, que se encostem em mim, que me mordam o pescoço, que saltem, me derrubem, ganindo e latindo. Quando fico assim, não me reconheço, entro na patota, na gangue, fico vadia. Sylvia Loeb 15/09/2008
CULPA É uma coisa que gruda, 
que não me deixa pensar, 
deve ser que está aí para isso mesmo, parar meu pensamento.
Quando ela me pega, me obriga, me prende é exigente é ciumenta. 
É como a melodia que não consigo parar de cantar, 
toma conta do pensamento, expulsa e apaga toda a música dentro de meu corpo, 
uma maldição, um vírus. 
O mesmo acontece com ela, se agarra em mim, 
me agarra e não me deixa pensar no que mais Eu Desejo. 
16/09/2008 Sylvia Loeb

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Cegueira


Fico cega sem ti. 
E se soubesses o medo que tenho da escuridão!
E o tanto que era iluminado meu olhar quando olhavas em mim.... 
Usei tua luz e tua energia roubei, como quem não tem aonde agarrar-se. 
Eu te quis tanto mas tive tanto medo... 
Gastei tua luz em fugas enquanto desprendido, me davas mais e mais. 
Foi o tanto que te quis que me cegou. 
Porque só cega não te buscarei em toda a parte 
Não te verei em todos os olhares 
Não te beijarei em todas as bocas. 
Fico cega sem ti. 
E tateio no escuro em busca de luz
22/09/2008

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Casamento

Um dia adormeceu no meio de um beijo.
Ele ficou chocado.
Procurou brincar com o assunto várias vezes,
contou aos amigos em tom de piada,
procurou rir de si mesmo.
Ela ficou sem jeito.
Não havia desculpa para isso.
Como dormir no meio de um beijo?
.
Um dia esqueceu-se de chamá-lo para almoçar.
A família toda na mesa, ele não.
Ele ficou perdido,
procurou entender porque havia acontecido,
comentou com os amigos em tom de piada,
procurou rir de si mesmo.
Ela ficou passada.
Como pudera esquecer-se dele?
.
Um dia teve que viajar sem ele.
Notou que sem ele era bem melhor.
Voltou alegre,cheia de histórias para contar.
Ele percebeu.
Ficou petrificado,
procurou entender o que estava errado,
conversou com amigos reservadamente.
Ela procurou disfarçar.
Detestou ter que fingir o que não sentia.
.
Um dia constatou que não o queria mais.
Ficou pasma.
Não sabia como dizer.
Ele percebeu,
procurou agradar, não conseguiu.
Ela conversou com os amigos reservadamente,
ele conversou com os amigos reservadamente,
os amigos conversaram entre si.
Ela criou coragem e falou.
Ele escutou o que já sabia.
.
Ela se foi
e ele ficou.
02/02/2007

domingo, 21 de setembro de 2008

Inspiração

Desde aquela tarde em que a visão do arco-íris viera juntar-se ao sentimento de felicidade que tomava proporções enormes, não conseguia definir exatamente o porque das sensações.
Talvez porque não estivesse pronta, ainda.
Lembrava-se de quando passara anos sem anotar nenhum acontecimento relevante. Mas o estranho é que não se apercebia da marca deixada por algum fato.
Parecia tudo muito distante.
Lembrava-se vagamente do sentimento de euforia que a tinha acompanhado durante bastante tempo. Mas não conseguia mais determinar quanto. Teria sido mais de um ano? Dois? Três? Não se lembrava.
Lembrava-se apenas daquele sentimento deliciosamente apaziguador mas não conseguia lembrar-se do porque.Talvez o importante fosse apenas o sentir. Talvez não importasse qual fato tivesse acarretado tal sensação.
Pensou que sem dúvida, o sentimento era mais importante do que qualquer fato.
Procurou focar o pensamento apenas nisso. A importância de sentir os sentimentos. Só isso importava.
Os fatos não tinham a menor importância.
Importava apenas o que restava depois que os acontecimentos se iam. Pois era isso o que realmente a acompanharia para sempre.
Apenas isso e nada além disso poderia lhe trazer inspiração.
06/11/2006

Cidade

Distante
Clarão
No escuro
Da noite
Longínquo
Rumor
Ao longe
Recorda
Felizes
Momentos
Alegres
Pessoas
Musica
Dança
Riso
Amizade
Sozinho
Reabro
Feridas
Curadas?
Pré-sinto
Tão forte
Buraco
Na alma
Re-sinto
Percebo
Que sinto
Saudade
Só-sinto
Que quero
Voltar
Pra cidade.
18/10/2006

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Mulher

Me olha, me quer;
Me sorri, me enternece;
Me fala, bem manso;
Me leva, me enlevo;
Me acaricia, bem leve;
Me beija, aos poucos;
Me abraça, com força;
Sussurra, no ouvido;
Me convida, eu vou,
Mulher que sou.
28/02/2007

Desopilar

Hoje deixo as amarras, abraço as farras, abandono-me aos acontecimentos, aproveito os ventos.
Atendo ao telefone, aceito os convites, escuto palpites, envio mensagens, acato viagens.
Nada que aprofunde pensamento, nada que lembre tormento.
Nada de lamento.
Não quero decisões, comparações, pressões.
Quero o alegre, nada que apoquente, quero ser leve, falante, eloqüente.
Venham musica e dança, atiro-me ao mundo, vou leve, vou fácil, vou fundo.
E por mais que este sentimento não perdure, por mais que aconchego eu procure, não quero o que me pare e me breque, nada que me torture, me amarre ou me segure.
12/08/2008

Mãos

Lembro-me das mãos dele. Nunca as esqueci. Tão bonitas eram, teimam em voltar à minha mente. Quadradas na base, dedos alongados e retos, unhas bem desenhadas. Mãos firmes. Moviam-se com delicadeza e força. Ao falar, desenhava com elas movimentos no ar. Muitas vezes não escutei o que dizia. Apenas olhava o desenho de seus movimentos e sempre, bem me lembro, um arrepio percorria meu corpo. Queria segurá-las com força e mantê-las ao meu alcance. Há muito não fazem parte da minha vida mas lembro-me delas, como se as quisesse segurar independentemente do corpo ao qual pertencem e se as tivesse agora escolheria, para colocá-las, o corpo que melhor se adaptasse ao meu. Porém, desde que me encantei por aquelas mãos, nunca deixo de olhar as mãos de um homem. Algumas nada se parecem com as dele, outras não me encantam de maneira alguma. Há ainda as que são quadradas na base mas não possuem dedos firmes, ou as que até se parecem, mas não têm a mesma força. Se pudesse iria buscá-las e as colocaria, destacadas de tudo, uma com os dedos colocados delicadamente sobre a outra, imóveis em toda a sua beleza, junto a mim. 04/04/2007

O teu momento

Me dá esse momento.
Me dá.
Deixa que fique colado em mim.
Que jamais se perca em praias longínquas,
em mares revoltos,
em noites sozinhas,
em praças solitárias,
em viagens interplanetárias.
Deixa que grude com força
e que eu o carregue como um trunfo.
Para que me lembre sempre
que um dia foi teu
e que quem te deu,
fui eu.  
Tita
29/09/2006.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Gula

Sabia-se gulosa de encantamentos, 
de aprendizados 
e de profundos sentimentos! 
Até exagerava 
de tanto para si pegar, 
e muito mal passava 
só por se fartar. 
Mas havia uma só coisa 
que a fazia perder 
essa gula de viver: 
era quando alguém que ela queria 
gula dela não sentia.  

Tita
17/09/2008

Acostamento

Os dias serão cheios de sol e de surpresas.
Sorrisos serão constantes, caricias sempre presentes.
Nos momentos difíceis, haverá conforto;
nos momentos estranhos, olhares de cumplicidade.
Haverá passeios inesquecíveis,
viagens maravilhosamente infindáveis,
pores do sol assistidos no apoio de abraços fortes;
conversas tranqüilas e momentos sussurrados.
Haverá riso, olhares brilhantes;
aconchego no fim da noite, agradecimento ao nascer do dia.
Haverá companhia e a sensação ímpar do pertencer.
Haverá tranqüilidade e a certeza da continuidade.
Por enquanto, a vida corre como um carro veloz
enquanto,
com os olhos fixos no horizonte,
aguardo no acostamento.
10/09/2007

Vício

Perguntado, disse que não os tinha. Que mentira! Tinha muitos, que não percebia. E não percebia, porque não se via, pois o não perceber-se já era um, que sempre se repetia. 03/10/2007

terça-feira, 16 de setembro de 2008

José Francisco

Podia ser qualquer um este menino, José como todos os outros ou Francisco como alguns. Ao nascer, definiram juntar os dois. Decisão de mãe? Complicada tornou-se sua inteiração no mundo, sempre dividido, sempre um pouco José como todos, Francisco como alguns. Sem lugar definido, sem jamais se encaixar, colocando-se sempre aqui e ali, a viver intensamente José, ou ser um pouco Francisco, cada um tão definido que até doía, com seus sentimentos tão completos. Quando era José queria ser Francisco e, quando Francisco, que falta lhe fazia José! Não encontrou maneira de completar-se porque é sempre tão difícil juntar dois em um....porque me tornaram dois quando teria sido tão simples terem-me definido apenas um? Pergunta martelava sem trégua. Vai ver por isso tinha dois empregos, duas mulheres sem que uma soubesse da outra, uma verdade e sempre uma mentira, um querer e um negar, uma decisão sempre indecisa, duas vidas tão opostas. Vai ver... Um dia José e Francisco finalmente compreenderam: não, não tinham culpa alguma de ser José Francisco. A culpa, era da mãe. 16/09/2008