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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Calcinha
Não sabia qual colocar.
Há tanto tempo não se viam!
Na verdade, as que comprara quando costumavam se encontrar estavam, há muito, sem uso.
A preta trazia a lembrança daquela noite deliciosamente inesquecível em que haviam amanhecido abraçados no sofá.
A chocolate lembrava o orvalho no corpo, à luz das estrelas.
Havia também a verde, com florzinhas delicadas. Ele gostara daquela e até escrevera poesias sobre o que lhe causava o simples lembrar da pequena peça.
Talvez fosse melhor comprar uma nova.
Ou ainda, poderia pensar em algo diferente.
Imaginou os dois conversando, uma mesinha ao meio.
Bebericando, relembrando fatos, os corpos cada vez mais perto.
Quando as bocas se aproximassem e o abraço fosse inevitável, ela
diria: “não estou usando nada embaixo!”
E então, deixaria tudo por conta dele.
Tita Ancona Lopez
Escrito em 21/09/2007
Tudo a ver
What is essential is invisible to the eye
The Little Prince
Há tanto tempo não se viam!
Na verdade, as que comprara quando costumavam se encontrar estavam, há muito, sem uso.
A preta trazia a lembrança daquela noite deliciosamente inesquecível em que haviam amanhecido abraçados no sofá.
A chocolate lembrava o orvalho no corpo, à luz das estrelas.
Havia também a verde, com florzinhas delicadas. Ele gostara daquela e até escrevera poesias sobre o que lhe causava o simples lembrar da pequena peça.
Talvez fosse melhor comprar uma nova.
Ou ainda, poderia pensar em algo diferente.
Imaginou os dois conversando, uma mesinha ao meio.
Bebericando, relembrando fatos, os corpos cada vez mais perto.
Quando as bocas se aproximassem e o abraço fosse inevitável, ela
diria: “não estou usando nada embaixo!”
E então, deixaria tudo por conta dele.
Tita Ancona Lopez
Escrito em 21/09/2007
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The Little Prince
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terça-feira, 15 de junho de 2010
Ao pé do bidê
Tinha certeza de que estava ali. Mas não o encontrava. Como podia uma coisa desaparecer assim, apenas com um rápido desvio do olhar?
Olhou em baixo da mesa. Não estava ali. Pensou que o melhor seria esquecer-se do papel por algum tempo. Recostou-se na cadeira e olhou novamente sobre a mesa. Estava lá.
Tinha certeza de que não estava ali há alguns minutos atrás.
Há algum tempo repetiam-se acontecimentos como este, o que o deixava bastante apreensivo. Há duas semanas, quando saíra do banho, a toalha não estava sobre a pia e ele nunca deixava de colocar a toalha sobre a pia ao entrar no banho. Saíra do banho e fora, molhado, procurar a toalha no quarto. Nada. Voltara ao banheiro e lá estava a toalha sobre a pia.
Achava muito estranho o que estava acontecendo. Se contasse a alguém, poderiam concluir que alguma coisa terrível sucedia a ele. Tinha de descobrir sozinho o que se passava pois tinha a certeza de que não era com ele que havia algo errado.Passou a prestar atenção em cada mínimo movimento seu ou ao seu redor.
O inesperado continuava acontecendo. Novamente objetos que mudavam de lugar.
Resolveu anotar. Comprou um bloco e anotava tudo o que fazia e o lugar em que colocava cada
Naquele fim de tarde, ao sair do banho, notou que a toalha, novamente, não estava em cima da pia. Pegou seu bloquinho e leu: “coloquei a toalha sobre o bidê.
Assustou-se. Era ele! Era ele que não se lembrava o que tinha feito minutos antes! Era ele!
Aterrorizado correu, sem roupas pela casa deserta: quero minha sanidade de volta, quero minha sanidade de volta!
Controlou-se, parou, respirou fundo.
Calmamente voltou ao banheiro e procurou a toalha sobre o bidê. Não estava lá.
Foi ao armário, pegou uma toalha limpa e voltou ao banheiro. Amarrou-se, a ele e à toalha, no pé do bidê.
E dali não mais saiu.
Tita, 01/06/2007
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Poeta Convidado - Telê Ancona Lopez
Telê volta, porque a publicação do poema abaixo foi colocada com a versão errada e, na volta, nos brinda com "Bach" que, conforme me conta a prima, quer dizer "riacho" em alemão. Bem Vinda Telê!
foto: André Porto Ancona Lopez
LINDAROSAMARIA
SABE CANTOS E BALADAS
ACALANTOS
E CONTOS DE RISO E PRANTO
TECE O TEMPO A VOZ CALADA
.....................NOS ACORDES DE CHOPIN.
.
LINDA ROSA MARIA
SABE DAS COISAS
DO HOJE E DO INFINITO
TÃO ANCILA E TÃO RAÍNHA
NAS SUAS CONVERSAS COM DEUS.
.
LINDA TÃO CHEIA DE GRAÇA
TANTO AMOR NO SEU VIVER.
Telê, 2008
Nesta água molho meus pés cotidianos
Depois os olhos para que eu não perca
a sede de buscar
...................a taça e o copo
...................a rede e a semente.
Telê (2007).
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2008,
foto: André Porto Ancona Lopez,
POETA CONVIDADO,
Telê Ancona Lopez
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Montanha-russa
Estou em busca de paz, dias metódicos, tarefas costumeiras, repetições previsíveis. Quero conversas calmas que não pressuponham idéias contrárias.
Livros, só aqueles que não fazem pensar ou, até mesmo, reler os já lidos.
Comidas sem muito tempero ou cor, pratos de elaboração simples e inconseqüente. Sensações apenas as mais corriqueiras.
Pensamentos? Os de sobrevivência.
Nada de imprevistos.
Até pensei em treinar meditação, aulas de yoga, escutar mantras...bem eu...
Quem sabe desta maneira encontro novas idéias, pensamentos diferentes, dias cheios de novidades, conversas agitadas, livros nunca lidos, comidas apimentadas?
Quem sabe desta maneira recupero o coração aos saltos e a sensação de recomeço a cada minuto?
Quem sabe? Pois só o que busco é a alegria da vida, a paz sempre renovada, o corpo abandonado ao imprevisto e a sensação da curiosidade impaciente e cheia de adrenalina, como numa montanha-russa.
Tita - 29/11/07
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Afinidade
Gostamos de praia, os dois, do sol nos esquentando,
de mar morno no fim do dia e da moleza que dá depois.
O jeito de falar se parece, ao trocar mesmos pensamentos.
A poesia nos cai sempre bem, ao sabor dos nossos momentos.
Parece que ficamos quietos, com a mesma intensidade
e quando nos irritamos, temos o mesmo teor de maldade.
Somos afins nos sonhos, e também na felicidade.
Deve ser este o motivo de termos tanta saudade.
Tita 18/07/07
Tudo a ver
"Enquanto eu te via nascia um jardim nas minhas faces"
Caio Fernando Abreu em "Caio 3 D" - "A Quem Interessar Possa"
de mar morno no fim do dia e da moleza que dá depois.
O jeito de falar se parece, ao trocar mesmos pensamentos.
A poesia nos cai sempre bem, ao sabor dos nossos momentos.
Parece que ficamos quietos, com a mesma intensidade
e quando nos irritamos, temos o mesmo teor de maldade.
Somos afins nos sonhos, e também na felicidade.
Deve ser este o motivo de termos tanta saudade.
Tita 18/07/07
Tudo a ver
"Enquanto eu te via nascia um jardim nas minhas faces"
Caio Fernando Abreu em "Caio 3 D" - "A Quem Interessar Possa"
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quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Telhado de vidro
Você se lembra da noite no mezanino com o telhado de vidro mostrando as estrelas e de como você forrou o chão e deixou tudo macio e cheio de cores para me esperar e quase nem dormimos de tanto que tínhamos para nos dar e para falar?
Você se lembra do caminho até a praia, pelo meio do mato, você me segurando a mão e a praia vazia, só nós dois no silencio, olhando o mar calmo e sem ondas?
Você se lembra da compra na vendinha comprei patê e você comprou carvão para churrasco e depois você cantou e dedilhou o violão a tarde inteira e eu ali ao lado, embevecida e depois quase nem dormimos de tanto que tínhamos para nos dar e para falar?
Você se lembra do peixe vermelho numa praia longe aonde chegamos caminhando e de como era gostosa aquela carne forrada a caipirinha e dos pés afundando na areia porque era duro voltar e andar?
.
Então eu entrei no mar, tonta de alegria e de tão tonta perdi meus óculos escuros.
.
Houve aquele hotel que era gostoso, a janela aberta dando para o mar e ainda o outro naquela montanha fria, lembra você me abraçando enquanto eu olhava pela janela aberta e de como depois quase nem dormimos de tanto que tínhamos para nos dar e para falar?
Você se lembra da van que numa noite levou só nós dois até o restaurante com aquela musica tocando bem alto e de como durante o trabalho, os olhares se encontravam e de longe se prometiam e se esperavam?
.
Então eu sorria, tonta de alegria e de tão tonta, perdi a noção das coisas.
.
Outro dia você me mandou uma poesia lembrando e vira e mexe escrevo uma lembrando ou releio, porque você sim escrevia poesias bonitas e me ensinou a escrever desde aquela primeira que você me deu e daquela outra e mais a outra e a outra e ainda aquela outra de que tenho certeza você não se esqueceu porque aquela deixava você tonto e me deixava tonta e de tão tonta eu perdia o rumo e só sabia amar e nada mais. Será que não encontramos, depois de tantos anos, outra coisa para lembrar?
.
Então me lembro e quando lembro fico tonta e de tão tonta perco o rumo e o caminho e quase nem durmo de tanto ter para lembrar e não ter pra quem falar.
Tita 04/12/07
segunda-feira, 30 de março de 2009
Conversa
Ela gostava de explicar;
Ele, de resumir tudo em uma frase.
Ela falava sobre o seu dia;
Ele, apenas sorria.
Ela fazia planos;
Ele, escutava.
Ela gostava de perguntar;
Ele, detestava responder.
Um dia ela ficou quieta,
Ele também.
Ela detestou;
Ele, achou ótimo.
24/09/07
Ele, de resumir tudo em uma frase.
Ela falava sobre o seu dia;
Ele, apenas sorria.
Ela fazia planos;
Ele, escutava.
Ela gostava de perguntar;
Ele, detestava responder.
Um dia ela ficou quieta,
Ele também.
Ela detestou;
Ele, achou ótimo.
24/09/07
Cordilheira
Estou gelada, inerte.
Nada vejo ou faço.
Também não penso.
De que adiantaria?
Imobilidade sem sentido,
Inatividade impassível,
olhar turvo.
Estado de catarse?
Não sei.
Indefinível talvez...
Imagino-me longe.
Olho para o alto
e num repente me vejo.
.
Lá estou eu.
Vulto inabalável,
no pico íngreme
de uma cordilheira em neve.
5/09/07
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Indignação
Diga tudo sempre.
Cale nunca calmo.
Sereno fique não.
Expresse raiva sim.
Aguente o errado nunca.
Esbraveje alto sim.
Grite forte sempre.
Suporte o indigno não.
Aponte indigna ação.
Injustiça diga não.
28/05/07
Tudo a ver:
"INSUPORTAVEL: O sentimento de um acumulo dos sofrimentos amorosos explode no grito:"Isso não pode continuar."
Roland Barthes em "Fragmentos de um discurso amoroso"
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Mistura
Está ao meu lado. Aonde eu vou, vai também. Há tempos que não havia alguém que andasse ao meu lado desta maneira. Se estou gostando disso?
Não sei definir.
Ele gosta de dormir cedo e eu gosto de dormir tarde. Não lê e eu leio muito. Gosta de abacate e eu gosto de abacaxi...
Na verdade essas coisas não importam muito. Vai ver o importante é que ele esteja ali. Dá um certo status. Mostra que sou desejada e desejável.
Algumas vezes acho estranha a maneira como ele pisca o olho; como se de repente começasse a piscar e disparasse piscando intermitentemente. Mais estranho ainda quando o ritmo das piscadas começa a diminuir e a falhar, ora em um olho, ora noutro. Demora um pouco para voltar ao normal.
Eu, pisco apenas uma vez.
Outra coisa: os cabelos dele são espetados, bem retos para cima. Ele bem tenta deitá-los mas não consegue. Teimam em levantar-se. Acho que ele fica nervoso com isso porque bate a mão na cabeça a todo o momento. Às vezes bate com muita força e solta um gritinho de dor.
Eu tenho os cabelos lisos e não bato na minha cabeça.
Ah! Antes de dormir ele gargareja. Mas não é um simples gargarejar. Coloca água com sal na boca e sai caminhando pela casa toda, gargarejando em todos os tons. Acho que acha isso engraçado.
Eu, não gargarejo e não acho engraçado.
E quando faz todas essas coisas ao mesmo tempo? Sai pela casa gargarejando, piscando e batendo na cabeça? Até hoje não percebi se ele gostaria que eu achasse graça ou se isso é o normal.
Eu me escondo atrás do livro.
Mas há uma coisa que é a mais interessante de todas: ele é baixo, muito baixo. Para andar de mãos dadas com ele eu costumo dobrar um pouco os meus joelhos (na verdade eu também entorto um pouco o corpo para o lado em que ele está).
Se eu me importo?
Não sei definir.
Desfilo com ele em todos os meios, finjo que não vejo o que não gosto, e até hoje não sei o que, nele, eu gosto. Na verdade essas coisas não importam muito. Vai ver o importante é que ele esteja ali. Dá um certo status. Mostra que sou desejada e desejável.
Então, com ele me misturo, assim como quem não está percebendo nada.
Se gosto da mistura?
Sinceramente?
Não sei definir.
01/02/07
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Abutre
O dia amanhece, silencio quebrado apenas pelo badalar dos sinos colocados nos pescoços das ovelhas.
O sol surge por entre as nuvens vermelho, anunciando mais um dia de sol.
Sinto a sempre presente sensação de vazio quando o dia amanhece na beira da mata.
Estou ali, sem estar.
De fora de mim me vejo e procuro convencer a mim mesma de que não há nada melhor do que estar neste lugar cheio de paz e nada melhor do que ali, tudo poder criar, pensar, fazer.
Canto.
A voz se perde no imenso espaço.
Passa um grupo de maritacas fazendo estardalhaço, felizes com o nascer do dia.
Um bando de pássaros canta, a coruja se retira.
Penso que o dia chegou e tenho de me movimentar.
Mas sinto-me presa.
Como uma árvore torta, plantada no lugar que não lhe pertence.
Os galhos se vergam e sinto o corpo pesado, pendendo para o chão.
Não deveria existir uma árvore assim em um lugar destes.
Talvez eu devesse ir embora.
Provavelmente é por este motivo que os pássaros não param.
Passam ao largo.
Percebem ali a presença do intruso que não se mescla com o bonito do lugar.
Ao longe, vejo um abutre que rápido se aproxima.
Este, decidido, pousa.
Veio para ficar.
03/04/07
Tudo a ver:
"Muitas vezes, nossa jaula somos nós mesmos, que vivemos polindo as grades em vez de libertar-nos"
Clarice Lispector em "A descoberta do mundo"
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domingo, 14 de dezembro de 2008
Improvável
Não, não terei a tua presença como gostaria,
nem seremos cúmplices ante os fatos da vida.
Não nos faremos companhia nos dias de sol,
nem nos esquentaremos nas noites de inverno.
Não brindaremos com vinho na madrugada,
nem nos confortaremos nas horas de solidão.
Não iremos juntos às compras,
nem nos acompanharemos em momentos difíceis.
Não percorreremos juntos trilhas desconhecidas,
nem discutiremos os melhores filmes.
Não seremos engraçados um com o outro,
nem nos telefonaremos no meio da noite.
Não seremos um.
Seremos sempre díspares e incompletos,
a correr atrás do improvável,
a perseguir o impossível.
Tita 24/01/2007
nem seremos cúmplices ante os fatos da vida.
Não nos faremos companhia nos dias de sol,
nem nos esquentaremos nas noites de inverno.
Não brindaremos com vinho na madrugada,
nem nos confortaremos nas horas de solidão.
Não iremos juntos às compras,
nem nos acompanharemos em momentos difíceis.
Não percorreremos juntos trilhas desconhecidas,
nem discutiremos os melhores filmes.
Não seremos engraçados um com o outro,
nem nos telefonaremos no meio da noite.
Não seremos um.
Seremos sempre díspares e incompletos,
a correr atrás do improvável,
a perseguir o impossível.
Tita 24/01/2007
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Carnaval
Encontraram-se sem querer, ela e o vampiro. Achou bonita a fantasia. Sorriu, ele sorriu com os caninos enormes. Bonito, aquele vampiro. Logo enlaçaram-se e começaram a dançar. A ela, parecia que estavam voando.
Entrou em estado de euforia. Ele jogava e pegava seu corpo ao som da música. Ela, olhando fixo nos olhos dele,deixava que a levasse.
Ao fim da noite, ele insistiu para que ficasse mais tempo com ele. Na verdade seu estado era de tamanho envolvimento, que ele poderia levá-la sem nem mesmo perguntar.
Andaram abraçados por ruas estreitas, por becos pequenos. Com ele ela não tinha medo.
Chegaram a um galpão diferente que se destacava na rua escura. Colocou musica, serviu bebidas, cheio de charme.
Ainda com a fantasia e com os caninos enormes, abraçou-a com força e a beijou.
Foi como se não existisse mais chão. Voou no beijo, saiu do ar.
Pegou-a no colo, jogou-a na cama, tirou sua roupa e aproximou-se, para beijar sua nuca e seu pescoço.
Só então ela percebeu que não era carnaval.
31/01/07
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Adjetivo
Faceira passou, sabendo que ele a observava.
Sabia que olhava seu corpo, o movimento dos seus cabelos e seu jeito de caminhar. Sabia.
Sabia também que ele nada diria pois assim havia sido, desde a primeira vez. Arrumava-se para ele, penteava-se para ele, perfumava-se para ele.
Para que ele a olhasse.
E passava, para que ele a acompanhasse com os olhos.
Ele a queria. Queria que chegasse até ele. Acreditava que seu olhar dizia tudo. Ela sabia. Queria que ele lhe dissesse. Apenas uma vez, nem que fosse apenas um adjetivo. Não falasse, ela não chegaria.
Ela passou, e passou novamente.
Ele olhou, desejou, e olhou novamente.
Ele a queria,
Ela o queria.
Ele não disse.
Ela não foi.
Tita 04/06/2007
Sabia que olhava seu corpo, o movimento dos seus cabelos e seu jeito de caminhar. Sabia.
Sabia também que ele nada diria pois assim havia sido, desde a primeira vez. Arrumava-se para ele, penteava-se para ele, perfumava-se para ele.
Para que ele a olhasse.
E passava, para que ele a acompanhasse com os olhos.
Ele a queria. Queria que chegasse até ele. Acreditava que seu olhar dizia tudo. Ela sabia. Queria que ele lhe dissesse. Apenas uma vez, nem que fosse apenas um adjetivo. Não falasse, ela não chegaria.
Ela passou, e passou novamente.
Ele olhou, desejou, e olhou novamente.
Ele a queria,
Ela o queria.
Ele não disse.
Ela não foi.
Tita 04/06/2007
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Genética
Acredito que tenha mudado ao longo do tempo, a minha genética. Caso contrário, como se explicaria esta não eu que por vezes surge, apossando-se de mim?
Quando me toma, observo. Por vezes me assusta, de tão atirada, dizendo por mim coisas que eu jamais diria. Não faz parte da minha genética sua atitude irreverente, suas palavras sem elaboração anterior, o jeito rápido de falar engolindo sílabas, esquecendo as palavras certas para cada ocasião. Não faz parte de mim sua ironia.
Assusto-me quando a escuto a proferir por mim o que a mim não cabe.
Um grito surdo diz “não fui eu, foi ela!”
Sou calma, tranqüila, não ajo histericamente, como ela, a cada novo sentimento que se apossa do meu coração. Sou ponderada, falo baixo, rio moderadamente, relaxo com facilidade, amo com vagar, como moderadamente e aceito as pessoas como elas são. Quem faz tudo estabanadamente é ela que, não sei de onde e nem como, veio a viver em mim.
Por isto acredito que houve uma explosão em meu interior, uma divisão de células, multiplicação de núcleos, gerando uma mudança genética que a trouxe.
O mais estranho porém, é que convivemos intimamente, ocupando o mesmo espaço e, o mais interessante é que mesmo ela, tão segura e decidida, ainda tem duvidas quanto a livrar-se de mim.
29/08/2007
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Veludo
Era macio e delicado. Parecia uma pétala, mas não sei o que era. Encostando-se na pele, o toque era relaxante. Levava a sonhos quase impossíveis, desligava o corpo de qualquer amarra. Transmitia a sensação de maciez flutuante.
Disseram-me que era veludo, mas sei que não era.
Continuo acreditando que era algo desconhecido, completamente inovador, que poderia levar quem o tocasse a sensações inimagináveis.
Acho que foi por acreditar assim que o roubei (coisa que nunca havia feito),e o escondi de todas as maneiras, pois não queria dividi-lo com ninguém.
Usufrui do contato constante e das sensações que me trazia durante muito tempo.
Até que um dia, por mais que o procurasse não o encontrei. Não sei definir se o deixei em algum lugar, se caiu quando o segurava e adormeci, ou se alguém o descobriu e sentiu o mesmo ímpeto que senti quando o tomei para mim.
O que sei é que até hoje me lembro daquela sensação e a procuro incansavelmente por onde quer que eu vá. Um dia o encontrarei novamente pois acredito que é impossível não reaver a plenitude depois de tê-la experimentado.
13/04/2007
Violão


Afino corda por corda.
Uso o diapasão, procurando alcançar o tom perfeito. Mesmo assim, tenho que escutar inúmeras vezes procurando acertar.
Coloco meus dedos levemente sobre as cordas e dedilho cada uma. O som não sai como eu gostaria.
Ensina-me que devo apertar com força cada corda ou o som não será límpido.Tenho dificuldade para apertar a corda com o meu dedo mínimo.
Diz que com o tempo vou conseguir. O importante é treinar diariamente, perseverar.
Diz que o principal, para tudo, é a perseverança, o alcance da perfeição.
Eu me dedico e procuro alcançar a posição certa, a pressão certa, o movimento certo no tempo certo.
Porém as tentativas são vãs. Não alcanço o tão esperado resultado.
Irrita-se. Gostaria que eu conseguisse. Pede que eu repita. Irrita-se novamente.
Fico desanimada mas procuro o melhor, novamente. Não vê melhora.
Então desisto. Só para que se irrite com razão, por ter perdido tanto tempo comigo.
09/04/2007
sábado, 4 de outubro de 2008
Escapulário
Mantinha de tudo um pouco na mesa de cabeceira.
O amuleto que lhe fora dado quando visitara o terreiro de umbanda, o pão bento da igreja de Santo Antonio, a Bíblia espírita e a católica.
Havia também uma imagem de Iansã, um anjo na parede logo acima da mesinha e uma oração do Hare Krishna. Na gaveta o mapa astral, sempre à mão, para que pudesse consultá-lo a qualquer momento.
E o incensório! Sempre pronto com o incenso purificador de ambientes.
A cada momento lançava mão de um destes escudos que protegiam, acalmavam e o faziam cheio de esperanças ante a vida.
Havia também o galhinho de arruda logo na entrada da sala e o espelho estrategicamente colocado, por recomendação de seu amigo especialista em Feng Shui.
Assim, cercado destes objetos, sentia-se seguro e confiava plenamente que nada de ruim lhe aconteceria.
No dia do encontro colocou a roupa que sempre lhe trouxera sorte e perfumou-se com o perfume que usara quando tivera aumento de salário. Verificou na tabela lunar se a noite era propícia para encontros e no almanaque abril se o horóscopo do dia, já checado inúmeras vezes, estava mesmo propicio.
Deu partida no carro e pôs-se a caminho, coração aos saltos. Quando a encontrou suas pernas tremeram. Estava linda! Como ele a amava! Tinha certeza de que daria tudo certo depois de tanto tempo que não se viam. Fora ela que pedira um tempo, ele bem se lembrava.
Lembrava-se também de que na noite em que haviam se separado, esquecera-se de colocar a pedrinha de cristal no bolso. Instintivamente colocou a mão no bolso para checar. Alivio!
A pedrinha estava lá.
Daria tudo certo!
Quando chegou perto seus olhos se iluminaram. Queria abraçá-la e contar da saudade.
Foi no abraço que percebeu que algo não estava bem e, na conversa que se seguiu, teve certeza: ela não o queria mais.
Não esperou o jantar. Não queria chorar na frente dela, não queria expor seus sentimentos desta maneira. Foi embora rapidamente, os olhos baixos e um pensamento martelando: o que fizera para que desse tudo errado?
Sentiu-se sufocar e levou a mão ao pescoço. Foi então que deu-se conta do terrível esquecimento. Por isto dera tudo errado. Como pudera se esquecer da proteção que estivera sempre presente?
E o culpado da solidão que o acompanharia daquela noite em diante era ele. Só ele.
Pois o escapulário, presença constante na correntinha presa ao pescoço, não estava lá!
08/11/2007
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Fascinação
Na mesinha uma batuta de ouro e ébano lembra que meu avô era maestro.
Veio da Itália com a orquestra e nunca mais se foi. Aqui ficou com minha avó e minhas tias e foi por isto que minha mãe nasceu no Brasil.
Chamava-se Torquato Amore, dava aulas de violino e nos dias de concerto, quando regia a orquestra sinfônica, ficava muito nervoso. Contam que minha avó permanecia ao seu lado com muitas caixas daqueles colarinhos duros; Ele pegava um e tentava abotoar: se não conseguisse jogava na cama e pegava outro.
Ou seria no chão que jogava?
Ela, ficava quieta e deixava que tivesse o seu rompante. Devia estar acostumada aos rompantes pois viera junto com ele, era regida por ele e sabe-se que maestros são artistas de humor imprevisível. Sabe-se lá o que faria se ela errasse uma nota em seu violoncelo!
Não conheci este avô, mas a ela conheci. O cabelo bem branco, ainda bonita, sempre quieta, sentada na mesma cadeira. Não me lembro de escutar sua voz. Sempre que a via, lembrava-me de que um dia fora linda e que desde nova tivera muitos admiradores.
Uma vez, quando chegou em seu lugar na orquestra, encontrou a cadeira e o violoncelo cobertos de flores: de um admirador. Escutei muitas vezes esta história que ainda tem um detalhe: o admirador não era nada mais nada menos do que o compositor de “fascination”, que foi sucesso na voz de Nat King Kole. Dizem as tias, que a música foi composta para ela.
Que linda esta história! O lugar na orquestra coberto de flores...
Contudo, ela escolheu ao outro. Com ele veio ao Brasil e por muitas vezes enfrentou o destempero e os colarinhos jogados.
Sempre que escuto a palavra “fascinação” lembro-me de minha avó sentada na cadeira e me pergunto se enquanto segurava os colarinhos e assistia ao destempero, lembrava-se da cadeira e do violoncelo cobertos de flores e se, ainda então, achava que tinha escolhido a pessoa certa.
6/12/2007
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Tango
Ultimamente há muita monotonia. A vida corre tranqüila, sem novidades.
Os dias transcorrendo sem sobressaltos, como um bolero suave.
Nada de um clássico saltitante como um alegretto, ou daqueles acordes por vezes tão fortes que fazem estremecer.
Algumas vezes há um pianíssimo monótono, sem graça e sem nuances. Nunca o jazz com variações ou os blues com sua tristeza. Muito menos lambadas que, de tanta alegria, até cansam.
Marasmo.
Há quem goste. Há quem queira e até busque a repetição segura e monótona de um dia a dia sempre igual.
Eu não.
Eu queria movimentos fortes; olhar para diferentes direções, caminhar com passos largos e ser constantemente direcionada para o desconhecido!
Queria tirar os pés do chão e (que glória) que alguém me segurasse no ar!
Depois, ser conduzida com firmeza e força por caminhos revoltos, alegres e cheios de novidades.
Futuro repleto de planos, dia a dia instigante, paixão pela vida, pelo trabalho, paixão de amor.
O que eu queria mesmo, era um tango!
14/11/2007
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