quarta-feira, 19 de março de 2014

Imune

Ta triste?
Eu não
Chateada?
Não!
Mas alegre não ta.
Sei lá!

Então o que foi?
Uai, não foi nada!
Ei, não to gostando.
Ué...

Vai ficar assim?
Como assim?
Inatingível?
Eu hem?
E num é?
Será que é?

Tá sentindo alguma coisa, qualquer uma?
Não, não to.
Então acho que é.
O que?
Um inatingimento!

Ta parecendo.
Vai ver é.
E você não se importa?
Eu deveria?
Claro que deveria!
Eu não...

E eu?
Como assim?
Nem liga pro que eu sinto?
Nossa, será? Vai ver...

Cadê eu? Aonde eu to?
E num é que eu num sei?
Sabe de uma coisa?
O que?
Não to nem quero estar.

Silencio

Eu queria ser assim como você
Como?

Imune!

Tita - 19/03/2014

segunda-feira, 10 de março de 2014

Butterfly





A borboleta azul marinho, 
pequena, 
delicada, 
com uma pinta branca na asa, 
pousou em minha mão e caminhou pelo meu corpo.
Ele disse: "dá sorte, você vai ver"
E tivemos dias inesquecíveis.

Tita - 06/03/2014

Tudo a ver
"Não podemos chegar a ter uma sensação adequada de nós mesmos 
se não houver outro para nos mostrar quem somos"
Alain de Botton em "Ensaios de Amor"

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Sorriso da Lua

https://www.flickr.com/photos/prima_stella/
Não me lembro de quando ou onde nos conhecemos.
Gosto de imaginar que foi em um fim de tarde, caminhando na praia, um indo, o outro vindo, barulho do mar, os olhos se cruzaram, sorrimos...
Ou teria sido em uma festa com musica ao fundo, cada um pensando em sua própria vida, a música tocou a ambos, os olhos se cruzaram, sorrimos...
Ou ainda em um bar movimentado, noite alegre, bebida no balcão, risada alto, os olhos se cruzaram, sorrimos...
Só sei que sorrimos e os sorrisos criaram o encantamento. Então decidimos andar na mesma direção na beira do mar, ou dançar juntos na festa, ou ainda beber do mesmo copo ou simplesmente nos sorrimos e ficamos dentro de nossos olhos?
Só sei que o encontro dos nossos sorrisos instalou-se em mim, explodindo sensações. Mergulhei no mar? Dancei muito? Bebi além da conta? Ou apenas me afoguei em nossos olhos?
Não me lembro de quando ou onde nos conhecemos mas de nossos olhos e do seu sorriso não me esqueço.
Não me esqueço,
não me esqueço.

Tita - 21/02/2014


Tudo a ver
"Sonhei que você sonhava comigo. Ou foi o contrário? Seja como for, pouco importa: não me desperte, por favor, não te desperto"
Caio Fernando Abreu em "Pequenas Epifanias"

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Vazio

https://www.flickr.com/photos/flaviatavares
Na esquina da rua
Na esquina da vida
mal vivida.
Num canto, no escuro,
grudada no muro
oco.
Num beco
seco.
Do mundo
sem ti.

Tita - fevereiro, 2014

Tudo a ver
"Que fazer
Diante do nunca
Senão procurar
Sempre
Em algumas notas furtivas?"
Muriel Barbery em "A elegância do ouriço"

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Mudança


Peguei a escova de dentes mas deixei o vidro de shampoo e o sabonete líquido.
Propositalmente esqueci-me de um pé daquela meia branca com o desenho da Nike em azul.
Levei as roupas mas deixei uma bolsa.
Os sapatos, levei todos.
Peguei meus papeis, minha caixa de recordações e os livros porem, deixei dois, com frases marcadas e observações escritas a lápis, em muitas páginas.
Não levei objetos, nem filmes, nem musicas.
Esvaziei as gavetas, guardei os remédios, deixei alguns cabides.
Fechei a porta e sai.
Sorri um sorriso torto, um só pensamento: encontrando tudo o que deixei, ele se lembrará de mim.
Ele se lembrará de mim?

Tita - 11/02/2014

Tudo a ver
"Todo atento para não errar, errava cada vez mais"
Caio Fernando Abreu em "Pequenas Epifanias "

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Debaixo da Mesa



Quando eu era pequena gostava de brincar debaixo da mesa. Algumas vezes escondia-me ali e, sem que percebessem, escutava a conversa dos adultos enquanto almoçavam ou sentavam-se para jogar cartas. Era gostoso ficar ali, sentindo-me abrigada e protegida. Ao mesmo tempo em que transgredia regras, por estar escondida e escutar conversas que não me diziam respeito, estava protegida por eles e nada de ruim poderia me acontecer. Algumas vezes cheguei a adormecer e acordar apenas quando escutava vozes aflitas me procurando pela casa. Então saia sem que me vissem e fingia estar dentro do quarto ou do banheiro, para que nunca descobrissem meu esconderijo.
Depois de muito tempo, já adulta, houve um dia em que entrei debaixo da mesa em uma situação completamente diferente daquela de minha infância.  Foi durante uma queimada.
Você já viu uma queimada?
Norte do Brasil, fazenda só mato, filha bebê. Derrubada de mato feita na foice, no facão, na moto-serra. Toda a vegetação para o chão. Verde caindo, barulho de árvore tombando. Depois silencio. Tudo aquilo que tinha sido decepado ainda com vida, resta tombado no chão para secar castigado por dias e dias (cerca de dois meses) de sol.
Até que chega o mês de agosto, mês da queimada. Acero para o fogo não passar para as fazendas vizinhas, pessoal saindo para todos os lados da fazenda, todos prontos cercando a área seca e, a um sinal, tacar fogo!
De longe, bebê no colo, vejo tudo parada no vão da porta da cozinha. 

Sobe densa e negra a fumaça do fogo. Barulho de estalos, fuligem começa a cair. Sentamo-nos no degrau, o bebê e eu, ambas quietas, meus olhos nostálgicos e os dela incrédulos. Eu digo: estamos queimando o mundo! Ela aponta a fuligem e diz “óia”.
Então acontece, num repente. Do meio do cinza surge uma fumaça que dá voltas, cada vez mais concêntricas e mais rápidas. Um rodamoinho, um funil que caminha para todos os lados e vem vindo, meu Deus, para fora da queimada, para cima de nós. Vem vindo, não é possível, como? Vai sair de lá? Vem! E sai do mato e entra para o quintal e corro eu com o bebê no colo para debaixo da mesa.
Barulho, vento zupt, zupt, zupt, barulho redondo, como explicar esse barulho? Passa pela casa, ventania, telhado se abrindo, sobre a mesa telhas e telhas estilhaçadas.
Depois silêncio.
Embaixo da mesa minha bebê e eu, incrédulas.
O rodamoinho passou. Destelhou metade da casa, nenhum estilhaço nos atingiu.
Saímos do esconderijo de gatinhas. Ela diz óia, óia, óia, e eu penso: é a natureza que se revoltou.
Tita 

Tudo a ver
Ter idades
é estar perto de tudo
e não tocar
senão esse turvo espelho: saudades
Mia Couto em "idades, cidades, divindades" - A Dor do tempo.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Como?

google images

Como serão aqueles beijos e o caminhar daquelas mãos quando em desejo?
Como aqueles olhos quando em busca de respostas para os chegares de seu próprio corpo?
Como será seu movimento quando em busca de união e pertencimento?
E como o olhar e a fala, aquela voz, quando em aconchego e êxtase?
Como?

Tita - 2014

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Please

foto: Ana Mellone

Please
Be good and let me know
Cause your eyes will never show
The way
You feel

Tell me
What you think of us
Cause I will never guess
What you
Can plan

I
Would never let you go
If only I could know
What you
Stand for

Cause
We're always so unlike
To share the known way
Of sharing things

And
I'll always fly away
Although I'll never say
What you don't mean

So
Let's live what we can have
Untill our life won't take
Our parts away

And
Let's feel the good there is
Cause you know that this is
The way we are

Then
Let's give what we can give
And take the good to take
Until we are
Apart

Tita 09/01/2013

Tudo a ver
"Because I know that time is always time
And place is always and only place
And what is actual is actual only for one time
And only for one place"
T.S.Eliot em "Selected Poems - 1930"

domingo, 29 de dezembro de 2013

Ai!

Aiapraia! 
Eiareia!
Soueu
Sim, mim.

Tita 29/12/2013

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Palavras em pó


Surgiam com abundancia fagulhas que, desprendendo-se do pensamento, iluminavam folhas de papel. 
Se a mim voltarem não deixarei de pegá-las e prende-las com muito cuidado pois que fagulhas, se as queremos prender, desmancham-se e se transformam em pó.
Não as deixarei fugir. 
São como um dom que preenche, um arrepio enorme que enche o ventre, transforma-se em vento e vomita sensações fortes e cheias de raios. 
Vez por outra um raio mais veloz ultrapassa todas as barreiras e é capaz de transmitir levezas.
Quero agarrar-me a ele e sair em buscar das bolas cheias de palavras que costumavam espalhar-se por todos os cômodos a convidar-me a pegá-las uma a uma, separá-las e deixar que pousassem no papel em lugar certeiro e infalível, ao qual pareciam ter sempre pertencido.
Tita 09/12/2013

Tudo a ver
A cabeça é como uma taça que pode estar cheia ou vazia. Se estiver cheia com seus próprios pensamentos, todas as maravilhas do mundo lhe serão inúteis: derramarão pela borda, como água que se derrama pelas bordas de um copo já cheio. Para se poder ver é preciso parar de pensar.
Rubem Alves em "Retorno e Terno" (campos e cerrados)



sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Tabuleiro de xadrez



Mexo as peças mas não saio do lugar.
O jogo não se encerra enquanto meu cavalo anda para a frente
e para o lado e a torre volta para traz.
Nunca fui boa nesse jogo, que exige decisão.
Desta vez espero pelo movimento  do outro.
Espero que o cheque mate chegue e me abata,
abstendo-me de pensar.

Tita 28/11/2013

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Meu tapete branco

Há um tapete branco na minha sala. 
É quadrado,mas nunca está colocado com seus ângulos perfeitamente retos. Deve ser porque é molengo e qualquer puxadinha fora do esquadro o distorce.
De algodão, é como se fosse peludo, mas seus pelos não ficam altos e sim caídos para todos os lados.
Acho bonito o meu tapete. Além disto, gosto de pisar nele descalça. Não chega a ser macio, mas é agradavelmente leve.
Outro dia chegou da lavanderia branco e, de tão branco, iluminou a sala toda.
Houve épocas em que foi cúmplice de encontros regados a muitas velinhas acesas iluminando o chão e comidinhas em bandejas baixas sobre ele. Tem saudade desses tempos esse tapete branco, mas anda tranquilo. 
É sabedor de que seus momentos vazios nunca serão eternos.
Sento-me na cadeira que o habita, estico meus pés descalços sobre ele e escrevo, sem pensar.
Há um tapete branco na minha sala que, de tão branco, ilumina a sala toda.

Tita 13/11/2013

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Cadeiras Vazias

foto - Ana Mellone

Não há história para contar quando uma história não tem história.
Depois de lida a introdução, o que haveria?
A introdução promete, aguça a curiosidade, dá vontade de mais.
Então você vira a pagina com ansiedade, pronto para devorar as próximas linhas, 
mas não há nada ali.
Apenas cadeiras vazias e páginas em branco.

Tita 16/09/2013

Tudo a ver
"Ah!,mas é tão bonito não compreender! Aparecem mil e uma interpretações desse único ato. Mil interpretações frutuosas e frutíferas..."
Hilda Hilst em "Por que, hein?


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Re-publicando o já publicado


ÍMPAR

Sou o ímpar que restou
do par que pouco fomos,
o sorriso que sobrou
do sonho que sonhamos.
Sem ti sou sem pedaço,
sem ti me despedaço,
sou cama sem travesseiro,
sou aconchego sem braço.
Não te vivi
como me vivias,
não te percebi
como me percebias,
não te recebi
como me recebias,
e só via morte em ti
enquanto inda vivias. 
.
Tita - São Paulo, escrito e publicado em 22/01/2010

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Vento

















Mar revoltado, ondas gigantes
Me agarro n'areia
Vento quer me levar.

Nem olho p'ra traz
Nem sei porque ir
Viro por todo lado
Não quero chegar.


M'embrulho em um xale
Enrolo a cabeça
Corro sem rumo
Não posso parar.

Tita - 11/09/2013

Tudo a ver
"No momento, meus olhos se encheram de muitas águas, todas que me faltaram em anteriores tristezas. E fugi, correndo dali para nunca mais"
Mia Couto em " Cada homem é uma raça" (O apocalipse privado do tio Geguê)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O nascer da arte


Peter Schafrick - Wave up
Você foi a emoção, a sensação, o poema.
A sensibilidade à flor da pele, a lágrima solta, o inédito.
E 
enquanto tropeçávamos nos acontecimentos inesperados, 
você foi a arte que se espalhou em mim.

Tita 21/08/2013



Tudo a ver
Para que eu chore, é preciso que vós choreis também.
Nicolas Boileau - 1636 // 1711



terça-feira, 20 de agosto de 2013

O telhado aberto



Houve uma noite em que o telhado se abriu e por ali olhamos o céu. 
As nuvens fizeram sombra na luz da lua e o barulho do silencio envolveu nossos abraços, enquanto o sereno morno entrou pelas cobertas e o cheiro das flores penetrou-nos as entranhas.
Então, alcançados pela lua,  fomos totalmente tomados, como em um transe de luz.
Lembro-me dessa noite a cada vez que a lua sobe clara e me ilumina 
porém, não mais me toma. 
Nunca como naquela noite em que o telhado se abriu.

Tita - 31/07/2013

Tudo a ver
As lembranças anoitecem mas não dormem
Outra Tarde (Marcio Proença/Marco Aurélio)
Do disco de Nana Caymmi - "Alma Serena"

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Bobagem


Foi bobagem aquela risada fora de hora
Foi besteira aquela palavra crítica, não ter percebido o que acontecia
Foi tolice não ter dito o que pensava, não pedir desculpas
Foi ridículo não mostrar os sentimentos, não agarrar a oportunidade
E foi incoerência, ai que incoerência,  
abrir mão da felicidade.

Tita 18/04/2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

Restos

Restou-me o peso.
Aquele que na verdade não pesa mas ocupa as entranhas, os pensares e todas as horas.
Foi o que restou.

Tita 26/03/2013

quinta-feira, 14 de março de 2013

Borboletas amarelas


Hoje lembrei-me das borboletas amarelas. Aquelas, que costumavam revoar na minha e na tua janela e batiam levemente as asas nos vidros. 
Você se lembra de que roçavam nossa face quando abríamos as vidraças para que o vento nos revoasse os cabelos, nos fechasse os olhos e nos fizesse sorrir?
Havia as que entravam dentro de casa tornando a sala cheia da luz que o amarelo traz...
Como queríamos que ficassem ali! Estáticos para que não se assustassem, olhávamos silenciosos os seus movimentos.
Houve aquela que pousou na sua cama, ali ficando por um dia e uma noite em que, para que não se fosse, dormimos no chão. Assim que amanheceu o dia eu a vi voar pela janela aberta.
Não, jamais prenderíamos uma das nossas borboletas.
Por isso voltavam e nos traziam a alegria dos que voam e são cobertos de cores.
Quando você se foi, pensei que se tinham ido com você. Depois soube que você pensava estarem comigo.
Hoje sei que não voltaram, nem em rápida visita, para nenhum de nós dois.
Foi a forma que encontraram para protestar por não termos sabido cuidar do sentimento que, de tão grande, nos ultrapassava e chegava até elas.

Tita - 14/03/2013

foto: manucardoso: http://olhares.uol.com.br/borboletas-amarelas-foto1539036.html