Mantinha de tudo um pouco na mesa de cabeceira.
O amuleto que lhe fora dado quando visitara o terreiro de umbanda, o pão bento da igreja de Santo Antonio, a Bíblia espírita e a católica.
Havia também uma imagem de Iansã, um anjo na parede logo acima da mesinha e uma oração do Hare Krishna. Na gaveta o mapa astral, sempre à mão, para que pudesse consultá-lo a qualquer momento.
E o incensório! Sempre pronto com o incenso purificador de ambientes.
A cada momento lançava mão de um destes escudos que protegiam, acalmavam e o faziam cheio de esperanças ante a vida.
Havia também o galhinho de arruda logo na entrada da sala e o espelho estrategicamente colocado, por recomendação de seu amigo especialista em Feng Shui.
Assim, cercado destes objetos, sentia-se seguro e confiava plenamente que nada de ruim lhe aconteceria.
No dia do encontro colocou a roupa que sempre lhe trouxera sorte e perfumou-se com o perfume que usara quando tivera aumento de salário. Verificou na tabela lunar se a noite era propícia para encontros e no almanaque abril se o horóscopo do dia, já checado inúmeras vezes, estava mesmo propicio.
Deu partida no carro e pôs-se a caminho, coração aos saltos. Quando a encontrou suas pernas tremeram. Estava linda! Como ele a amava! Tinha certeza de que daria tudo certo depois de tanto tempo que não se viam. Fora ela que pedira um tempo, ele bem se lembrava.
Lembrava-se também de que na noite em que haviam se separado, esquecera-se de colocar a pedrinha de cristal no bolso. Instintivamente colocou a mão no bolso para checar. Alivio!
A pedrinha estava lá.
Daria tudo certo!
Quando chegou perto seus olhos se iluminaram. Queria abraçá-la e contar da saudade.
Foi no abraço que percebeu que algo não estava bem e, na conversa que se seguiu, teve certeza: ela não o queria mais.
Não esperou o jantar. Não queria chorar na frente dela, não queria expor seus sentimentos desta maneira. Foi embora rapidamente, os olhos baixos e um pensamento martelando: o que fizera para que desse tudo errado?
Sentiu-se sufocar e levou a mão ao pescoço. Foi então que deu-se conta do terrível esquecimento. Por isto dera tudo errado. Como pudera se esquecer da proteção que estivera sempre presente?
E o culpado da solidão que o acompanharia daquela noite em diante era ele. Só ele.
Pois o escapulário, presença constante na correntinha presa ao pescoço, não estava lá!
08/11/2007