Houve aquela que se colocou naquela situação em que não gostava de estar. Tudo falta de controle.
Na verdade não se sabe o porque dessa necessidade de tanto controle sobre si mesmos. Sempre tendo de controlar-se.
Então vem o branco. Tudo muito puro e imaculado, o que só decorre do controle.
Por fora bela viola, por dentro...
Seus pedaços já estavam desbotados. Desabotoados de afetos. Talvez fosse impar. Ou uma barca furada.
Lembrava-se da canoa em que não conseguia ficar de pé. Os salva vidas eram sempre necessários porque mesmo que os rios corressem mansos, havia pedras no fundo e era perigoso, muito perigoso mergulhar de cabeça e se machucar.
Aos pouco ia aprendendo onde estavam as pedras, aqui e ali. Algum dia soltar-se-iam do fundo, boiariam e passariam a bater-se umas nas outras? Que grande perigo sair nadando por entre elas e estar entre duas que poderiam bater-se.
Grande perigo.
Tirou o pé da canoa. Estava ficando tonta com os pensamentos que, não sabia de onde, vinham nela se instalar.
Era verão quando tudo acontecera? Fora de repente, mas não se lembrava de ter sentido calor. Talvez porque sempre houvesse água e podia refrescar-se quando quisesse.
Era tempo de garças brancas e de mergulhões aos montes, na beira dos rios. Delicados e bonitos.
Ao longe algumas emas poderiam ou não aproximar-se. Não havia girafas nem leões.
Só seu pescoço comprido que, alto, quase se destacava da cabeça.
O problema era este: o pescoço comprido. A cabeça ficava alta e cabeças altas veem demais.
Tita - 27/09/2014
Tudo a ver
Se abres os olhos,
abre-se a noite de portas de musgo,
abre-se o reino secreto da água
que emana do centro da noite.
E se os fechas,
um rio, uma corrente doce e silenciosa,
inunda-te por dentro, avança, torna-te obscuro:
a noite molha margens na tua alma.
Octavio Paz em "Agua Nocturna"