quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Lá dentro

 
 
Minha alma treme,
Dentro de mim.
Som de corda esticada,
Muito tensa.
Faz música,
Desafinada.
Balbucia,
Sem controle.
E gira,
Fora do ritmo.
Tita NY - 22/11/16

Tudo a ver
Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Saramago

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Blowing





Enquanto as folhas tremem ao roçar do vento
E o ar grita ao balanço dos galhos,
Eu te penso.
Enquanto as luzes se apagam
E a noite se esvai, fria e calma,
Eu te penso.
E te sofro
E me sofro
Nos desencontros, nos desvarios, nos desatinos e nos confrontos 
Do que resta
Das verdades
De nós dois.
Tita
NY, 20/11/2016

Tudo a ver
"The answer, my friend, is blowing in the wind"
Bob Dylan


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Enigma


Sempre escorregava.
Nos pingos de água, nos pisos lisos e no gelo da neve mas, principalmente, escorregava nas palavras.
Passava por elas deslizando sem que se fixassem no pensamento. 
Escapavam-lhe inexplicavelmente. 
Algumas conseguia apanhar pela primeira ou ultima silaba porem, algumas vezes, deixava escapar as do meio. Então, guardava apenas os pedaços, os frangalhos e, de posse desses, passava a procurar, incansavelmente, suas partes.
Um dia deu-se conta de que tinha uma silaba nas mãos. Apenas uma.
Sem saber de onde teria vindo procurou encontrar-lhe o sentido.
Escutou-a, mas nada dizia;
encostou-se nela, não havia aconchego; 
passou-a em seu corpo, sem sensações. 
Então soltou-a no ar.
Voou como se tivesse asas. 
Rodopiou, flutuou e fez desenhos contra o céu. 
Depois, caiu-lhe novamente nas mãos.
Até hoje a mantém e procura, em vão, uma forma de decifrá-la.

Tita 29 de janeiro, 2016

Tudo a ver
"Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia"
Mia Couto em "idades cidades divindades"

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Espaço


Fechar os olhos ao sol e sair do mundo.
Boiar em águas refrescantes deixando o pensamento correr
Escutar as árvores, os pequenos animais, os insetos, o vento
Sentir a água a roçar o corpo, como um carinho.
Nada mais necessito para alcançar a plenitude 
da paz perfeita

Tita 07/01/2016

Tudo a ver
Eu morro ontem,
 Nasço amanhã, 
Ando onde há espaço. 
Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes

domingo, 13 de dezembro de 2015

Ciúme

Afastava dela todos por quem achava que poderia interessar-se, porque tinha um medo enorme de ser traído, de fraquejar,chorar e sofrer.
Tinha horror ao imaginar a boca dela beijando outra boca, os olhos dela olhando com admiração para ninguém que não ele. 
Então afastava-os um a um e sofria, calado.
No domingo à tarde, estando os três juntos, viu os olhos dela e soube: ela queria beijar aquela boca.
Entrou em desespero, imaginava-a agarrada ao outro, dando o corpo que era seu, a boca dela naquela boca.
Desconfiado, chegou fora de hora: ela tricotava no sofá . 
Viajou mas voltou dois dias antes do previsto: ela assistia televisão.
Aflito, a cada vez que chegava pegava-a com força e a beijava, beijava, para que não se esquecesse de como seu beijo era bom.
Um dia decidiu-se. Convidou o homem à sua casa e teve certeza; ela queria aquele homem.
Decidido aproximou-se, puxou assunto, ficou amigo, passou a almoçar com ele, levou-o a conhecer recantos da cidade e lhe propôs um negócio excelente em outra cidade bem longe dali. Viajaram juntos, e então foi convincente, facilitou ajudou e  lá o homem ficou. 
Voltando para casa, beijou de novo aquela boca e sussurrou, baixinho e pausadamente, nos ouvidos dela: aquele você nunca vai beijar.
Daquele dia em diante, percebeu que a boca dela não era nem tão bonita nem tão gostosa assim
Tita 1312/2015.

Tudo a ver
O amor pode nascer à primeira vista, mas não morre com uma rapidez correspondente.
Alain de Botton em "Ensaios de Amor".

sábado, 5 de dezembro de 2015

De noite

Não entendia o porque daquele incessante acender e apagar de velas. Noites foram feitas para se dormir, coisa que não lhe estavam permitindo.
Flashes daquela luz a incomodavam, ainda o cheiro da parafina, o barulho do fósforo riscando o papel áspero.
Impossível dormir.
Levantou-se, encaminhou-se para o clarão.
O saber que havia alguém acordado acalmou aquele que clareava a noite sem parar.
Então, a que se levantara encontrou-se perdida no escuro de breu.
E lá ficou até o clarear do dia, sem saber o porque do acender das velas.
Tita - novembro de 2014 

Tudo a ver
As velas, são extensão da vontade e dos pensamentos daquele que as acendem.
Internet

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Distancia



Tirou a canoa do barranco do rio e colocou-a na água. 
Os gestos firmes e certeiros, o pensamento confuso.
Certezas? Não tinha.
Então sentou-se na tabua que era o banco e pôs-se a remar.
Descendo o rio, quase sumiu no horizonte.
Ela, que pensava ser uma saída breve, percebeu.
Ele, sem perceber, distanciou-se cada vez mais, sem volta.
Tita
Escrito em 17/11/2014

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Objeto


Dava-me calor aquele corpo aboletado em mim.
Meus quatro pés firmes no chão não se arqueavam mas chegavam a suar.
Com que força agarrava meus braços; decerto imaginando que se os largasse, cairia.
Cheguei a bufar, gemi um pouco.
Aprumou-se; acho que ficou preocupado. 
Levantei um dos pés, cambaleei um pouco. Tremeu, levantou-se de um salto.
O que foi? (alguém perguntou).
Cadeira estranha (disse ele).
Finalmente respirei.
Acho que aqui ele não se senta mais.
Tita 03/12/2015

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Flores no chão




As flores moviam-se com o vento. Algumas caiam e o chão, já forrado de cores, parecia um tapete que o convidava a sentar-se.
Recostou-se ao tronco da árvore, fechou os olhos.
Foi então que viu-se a si mesmo, ao longe, um ser imóvel sentado sobre um tapete de flores, recostado a uma árvore frondosa e forte, uma aranha mais acima, tecendo uma teia.
Acontecimentos passaram pela sua mente, devagar e ininterruptamente. 
Cada pensamento, uma flor a mais no chão.
Assustado, percebeu que não sabia mais se era o que estava recostado ou este que se via de fora.
-Posso ser dois? Aquele e este?
Sabia que apenas resgatando aquele outro seria capaz de trazer o novo, despertar a mente, mudar a vida. Sozinhos, nenhum deles teria a força suficiente para operar a transformação que era necessária.
Duplo, esperou. 
Quando Aquele finalmente começou a mexer-se, juntou-se a ele. Juntos tornaram-se leves, subiram muito alto, até o ultimo galho. Ali pousaram e, a exemplo da aranha, passaram a tecer sua teia, cheia de minúcias, curvas e novos caminhos.


Tita 30/11/2015

Tudo a ver
Se é para morrer
quero morrer muitas vezes,
mais do que as que soube ter vivido
e fui eterno sem o saber.

Se é para morrer 

morrerei tantas vezes
que entre corpo e tempo
minha alma perderá caminho.

E morrerei

de tudo, em cada instante.

Morrerei até de ser árvore,

renascendo em estação
para além do tempo, para além da luz.

Se é para morrer

que seja como o amor:
tanto e sempre
que não será derradeira a última vez.

Mia Couto em "Canção contra o destino" (idades cidades divindades)


sábado, 30 de maio de 2015

Macio

Eu sei que você é lindo 
Porque um dia vi o menino macio e doce que hoje se esconde.
Por ele, transbordei de carinho e amor e o abracei e pedi que me enlaçasse a cintura.
Quando veio o grande vento, meu menino fugiu e nunca mais se deixou ver.
Que saudade tenho dele e de quando, a brincar, me mordia as orelhas 
e então, 
com sua pele macia, 
se aninhava em mim.

Tita
30/05/2015

Tudo a ver
“De vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa, que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você, sem dizer nada só olhando e pensando: “meu Deus, mas como você me dói de vez em quando…”
Caio Fernando Abreu

sábado, 10 de janeiro de 2015

carpe diem


Silencia na garganta,
a voz q'inda tem a dizer.
Silencia no gesto
o carinho que aflora.
Silencia no corpo
o desejo que arde.
Num repente,
o incerto.
Carpe diem.

Tudo a ver
No seas loca, filtra tus vinos
y adapta al breve espacio de tu vida
una esperanza larga
Horacio

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O ser apaixonado é solitário
pois que o sentimento que o toma é indivisível.
Tita - dezembro 2014

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Nós


Ainda vivo o carro rodando macio pela noite, 
musica forte,
casos contados nas mil tardes no sofá,
beijos macios e cheios de molejos.
Escuto as palavras e sinto os abraços,
o gosto dos chocolates nas noites vadias.
Então procuro suas costas macias.
Suas mãos me buscam, 
sua boca me amolece,
me entontece,
me tira do mundo.
Sussurros se encontram,
você sorri e se conta meu.
Conto-me sua.
E assim nos sabemos
e nos temos
no sempre melhor que, 
de nós dois,
será.

Tita
para E. 
4/11/2014


sábado, 1 de novembro de 2014

Sou

E então sou mais do que deveria e menos do que poderia. 
Sou rios que deságuam em mar aberto e curvas mal traçadas em caminhos que não chegam ao destino. 
Sou o abandono despido em lençóis amassados de noites de frio sem cobertor e o escolher incerto dos re-começos trôpegos. 
Sou as noites cheias de flores de cores fortes, as feridas feitas de cortes, sou o mel derramado das abelhas sem lar. 
E então torno-me o silencio de madrugadas sombrias em que ouço distante meu riso alegre e recolho-me solitária a tecer, incansável, rede que de mim me proteja e que abrigue meu ser solto no ar. 
Sou a lágrima que rola e cresce, me toma e afoga-me em lagos distantes que levam ao fundo e não me deixam voltar. 
Sou o fundo de areia, a sereia que re-surge, o tempo que urge, o gozo incompleto. 
E então me transformo no incerto, no fluido que não se fixa, no abraço sem braços, no aconchego perdido, no elo partido. 
E permaneço, atônita e perdida, no oco da musica a preencher o silencio que se torna duro e ímpar, numa noite sem fim. 
Tita

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Fuga

Corro, longo corredor.
Por todos os cantos
teus olhos pedintes me chamam,
brilham no escuro,
me aterrorizam.
Não paro, fujo e mais fujo
Teus braços se multiplicam em busca de mim
corro e me desvencilho.
Pulo dedos,
afasto ombros,
atravesso cotovelos,
fujo das mãos .

Tita
Julho, 2014.
Tudo a ver
"que mania de julgar têm os seres humanos, e como nos desassossegam e nos desconcertam os casos moralmente ambíguos que não permitem situar com precisão a linha de luz e a de sombra"
Rosa Montero em "A Louca da Casa"

domingo, 26 de outubro de 2014

Re-publicando



Hoje olhando minha filha com o seu pequeno tão lindo,penso nos meus, um dia pequenos, lindas coisinhas  um dia tão minhas.

Coisinhas pequenas

É um mergulho como aquele que descrevem quando querem dizer que conseguimos mergulhar em um cristal: uma queda, um escorregão, um tropeço e de repente você está lá, entrou em outra dimensão e não esta mais naquele mundo do qual você conhecia tudo e sabia todas as relações e decisões; Este é um mundo novo, desconhecido e profundo.
E você vai, seguindo aquela pequena coisa que toma conta de todo o seu tempo, suas idéias e seu pensamento e, a cada vez que aqueles olhos a olham, você escorrega e vai descendo no escorregador das sensações e aterriza no macio daquele mundo que pouco conhece mas que a aconchega, abraça e chama para lá ficar.
Magia.
A magia dos olhos que descobrem você e fazem com que fique totalmente tomada por eles enquanto as mãozinhas a acariciam e o corpinho vai amolecendo nos seus braços e se abandona, completamente. E então você sabe que está assistindo ao verdadeiro dar-se, o verdadeiro entregar-se e pensa "um dia eu já fui assim e acreditei que poderia me dar e me entregar".
E é ai que você faz uma promessa firme e para sempre: “oi coisinha pequena, eu vou fazer tudo o que puder para que você possa ter certeza absoluta de que vale a pena”.
Você se empenha, se esforça, se dedica e depois que o tempo passa e a primeira e a segunda coisinha crescem, você constata (e ainda escuta) que errou mil vezes, bobeou uma quinhentas, tropeçou outras mil mas você sabe (e só você sabe), o quanto fez tudo tendo a certeza de que estava sempre e sempre, fazendo o seu melhor.
Então você se desculpa, olha para os tão pequenos que se tornaram grandes, pensa "ai como eu sou feliz" e diz: se não fossem vocês, eu seria muito menos do que sou. Que bom que vocês vieram!

Tita - Publicado em 1/12/2009 
Tudo a ver
* Deborah aos 9 anos entra em casa agitada: “mãe e pai! Uma menina o outro dia morreu estrufada!” *João Paulo aos 3 anos, aprendeu o que quer dizer “sem educação” e então bravo com um menino que roubou seu brinquedo gritou: “Mendicação!” e olhou-me com um sorriso, o olhar vitorioso. 
Tita - caderno de anotações, há muito tempo.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Repentes

Se eu falar demais, 
rir fora de hora, 
deixar minha boca torta...
Não significar seu sonho, 
perder a fala, 
perder a cor...
Se não for tão engraçada 
ou inteligente, 
nem tão culta, 
interessante 
ou preparada...
Se você se irritar 
e ficar louco 
e eu inconsequente
agir como um mouco...
Se se entristecer
e eu calar, 
nada dizer...
Se eu ficar feia 
com olheiras 
e cansada...
Se num repente
eu para você 
for nada,
prometa
que me dirá.
Não me deixe 
sem aviso,
Não se vá.

Tita - 01/10/2014

Tudo a ver
Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
Fernando Pessoa

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Invólucro



D.arc.y - imagem flickr
Escuto a voz, tão perto mas neste momento tão longe. 
E escuto mais e mais uma vez.
Então gravo a minha e a solto no ar.
Neste momento da vida experimento sentimentos que, 
mesmo se um dia vividos, 
são novos, inesperados e muito fortes.
Nos meus pensamentos guardo o que me dá o sonho 
que me leva em frente.
Amo o invólucro que nos mantém unidos, 
nossos planos que iluminam as possibilidades 
e
as palavras que trocamos em todos os momentos.
Amo o possível que se abre 
e o fato de nos darmos as mãos 
para percorrer o caminho.
Amo o exequível, o superável, 
o atingível, o feliz que sabemos.
Amo a presença que se faz forte, 
segura e reconfortante.
Somos todas as possibilidades 
que agarro em meus braços.
Assim como seguro tua presença, 
sempre,
em mim.

Tita - 29/09/2014
Tudo a ver
A vida era passar o tempo juntos, 
era ter tempo para caminhar juntos de mãos dadas, 
conversando calmamente enquanto viam o sol se pôr.
Nicholas Sparks

sábado, 27 de setembro de 2014

Girafa

Houve aquela que se colocou naquela situação em que não gostava de estar. Tudo falta de controle.
Na verdade não se sabe o porque dessa necessidade de tanto controle sobre si mesmos. Sempre tendo de controlar-se.
Então vem o branco. Tudo muito puro e imaculado, o que só decorre do controle.
Por fora bela viola, por dentro...
Seus pedaços já estavam desbotados. Desabotoados de afetos. Talvez fosse impar. Ou uma barca furada.
Lembrava-se da canoa em que não conseguia ficar de pé. Os salva vidas eram sempre necessários porque mesmo que os rios corressem mansos, havia pedras no fundo e era perigoso, muito perigoso mergulhar de cabeça e se machucar.
Aos pouco ia aprendendo onde estavam as pedras, aqui e ali. Algum dia soltar-se-iam do fundo, boiariam e passariam a bater-se umas nas outras? Que grande perigo sair nadando por entre elas e estar entre duas que poderiam bater-se.
Grande perigo.
Tirou o pé da canoa. Estava ficando tonta com os pensamentos que, não sabia de onde, vinham nela se instalar.
Era verão quando tudo acontecera? Fora de repente, mas não se lembrava de ter sentido calor. Talvez porque sempre houvesse água e podia refrescar-se quando quisesse.
Era tempo de garças brancas e de mergulhões aos montes, na beira dos rios. Delicados e bonitos.
Ao longe algumas emas poderiam ou não aproximar-se. Não havia girafas nem leões.
Só seu pescoço comprido que, alto, quase se destacava da cabeça.
O problema era este: o pescoço comprido. A cabeça ficava alta e cabeças altas veem demais.
Tita - 27/09/2014

Tudo a ver
Se abres os olhos,
abre-se a noite de portas de musgo,
abre-se o reino secreto da água
que emana do centro da noite.
E se os fechas,
um rio, uma corrente doce e silenciosa,
inunda-te por dentro, avança, torna-te obscuro:
a noite molha margens na tua alma.
Octavio Paz em "Agua Nocturna"

Profusão


Diz que devo escrever sem pensar e que das palavras impensadas, surgirá a base do que deve ser escrito.
Deveria criar a partir das pequenas coisas, um mundo cheio de cores que se misturassem. 
Estão dentro de mim mas não sei colocá-las no de  fora e, quando as de fora trago para mim, são quase sempre as escuras.
Vamos criar uma vida cheia de cores, você vai ver. 
E as cores nos trarão momentos quentes como elas. 
Uma profusão de sensações.

Tita - 26/09/2014

Tudo a ver
Através da noite urbana de pedra e seca
o campo entra no meu quarto.
Estende braços verdes com pulseiras de pássaros,
com fivelas de folhas.
Leva um rio à mão.
O céu do campo também entra,
com o seu cesto de jóias acabadas de cortar.
E o mar senta-se ao meu lado,
estende a sua cauda branquíssima no solo.
No silêncio brota uma árvore de música.
Na árvore pendem todas as palavras formosas
que brilham, amadurecem e caem.
Na minha testa, uma caverna onde mora um relâmpago...
Porém, tudo se povoou com asas.
Diz-me: é deveras o campo que vem de tão longe,
ou és tu, são os sonhos que sonhas ao meu lado?
Octavio Paz em "Visitas"

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Falta


Sinto sua falta
Saudade 
de me aninhar nos seus braços, 
de escutar suas histórias, 
de ter sua presença carinhosa e doce.
Sinto ainda seus beijos macios 
e seus abraço forte e aconchegante
me segurando firme perto de si.
Saudade 
de sua chegada sempre alegre 
dos passeios, 
dos almoços, 
dos jantares, 
das conversas sem fim.
Sinto sua falta.
Saudade
do seu cuidado comigo, 
da sua vontade de me acariciar
das suas palavras doces 
do seu sussurrar no meu ouvido
do seu fazer-me rir 
em todos os momentos.
Sinto falta
da sua presença enorme
que ocupa meus dias
minhas horas
e meus pensamentos.
Saudade 
de me afogar na fumaça do seu cigarro
de ter pena de você ir embora
de esperar o dia seguinte para de novo
estar com você
ver você
falar com você
escutar você.
Sinto falta
de encontrá-lo todos os dias
e de cada dia ser melhor do que o anterior
e melhor do que o anterior
e melhor ainda do que o anterior
Sinto sua falta.
Sinto sua falta
Sinto sua falta.
Tita - 22/09/2014

sábado, 6 de setembro de 2014

Xô!

Hoje a realidade me pegou,
de assalto.
Invadiu minha sala,
estremeceu minha paz,
surrupiou momentos.
Ladra inconveniente
e incompetente.
Vá-te,
não te quero aqui!
                                               
                                                             Tita 06/09/2014
Tudo a ver
Tens nas tuas mãos fluidas,
O poder que mal sabes,
De alterar as marés
Que me atravessam
Silvia Chueire

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Dizeres

Quando eu disser, 
se disser,
Direi nos seus ouvidos, 
devagar.
No dia em que disser,
direi.
Mas se não sentir ou puder, 
não direi.
Talvez em algum momento eu pense em dizer
Mas ache que não devo
Ou talvez pense que direi 
se você disser
E, 
mesmo se você não disser, 
talvez eu diga.
Pode ser que  direi um dia e então, 
nunca direi que não disse.
No dia em que eu disser, 
se disser, 
não será uma frase rouca, 
nem será coisa pouca.
Porém não se iluda pensando que fatalmente direi.
Porque só direi 
se for profundamente sentido
E se para nós dois, 
fizer todo o sentido.
Tita 04/09/2014

Tudo a ver
Entre mim e o meu silêncio
Há gritos de cores estrondosas 
e magias recortadas dos sonhos 
que acontecem naturalmente
José Luis Peixoto em "A criança em ruínas"

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Requiem Eterna Doneis Domini

Esvaiu-se aos poucos. Muito lentamente.
A cada dia perdia um pouco do brilho do olhar que, cada vez mais ultrapassava o que houvesse a ser visto. 
A mim parecia que não lhe importava mais ver.
Falava com dificuldade e então, não falou mais. Desanimou-se e tinha dores.
Ficamos ali, uns nervosos, outros muito tristes, outros fazendo o que tinha de ser feito.
Nas ultimas noites dormi ao lado dela, com um misto de medo e curiosidade, procurando descobrir o que sentia.
Quis lhe dar conforto mas mal consegui adivinhar do que precisava.
Na ultima noite entendi que me pediu água e, enquanto corri para buscar ficou impaciente e gritou "Água", Água"! Entendi, mesmo que tivesse sido dito daquela maneira quase ininteligível.
Retornou em mim toda a impotência que sempre senti perto dela. Quantas tentativas de que se sentisse segura comigo, todas em vão, como esta, da ultima vez.
Deixava, e até me pedia, que cuidasse de sua vida financeira. 
Porém, da emocional, nunca deixou que eu me aproximasse.
E foi-se indo assim, aos poucos, o corpo magro e cheio de dores que mal conseguíamos aplacar.
Demos-lhe despedidas lindas, a missa, o velório, a musica, tudo como gostaria.
Mas  nunca saberei se percebeu o meu esforço da vida inteira,
Nem se algum dia desejou que eu realmente fizesse parte.
Tita 01/09/2014

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Retalhos de vida



Poderia ir  àquele bar de música, à praia, ao domingo perdido no sol
Dançar, onde danço sozinha ou com quem nem pergunto o nome, dançar por dançar.
Passear pela noite, entrar onde me aprouvesse, naqueles bares estranhos em que gosto de estar, escutar músicas pela noite adentro

Poderia ir ao cinema, depois comer um sanduíche, comentar o filme com amigos
ou música clássica, escutar o piano, o coro, o violino
Sentar-me em uma mesa em um café, caderno na mão,observar as pessoas

Poderia deixar-me ficar, ler um livro, deitar-me no tapete da sala e escutar música bem alto,
folhear antigas recordações e re-chorar o já chorado, re-rir o já rido, re-lembrar o já vivido, o que poderia render lindos textos
nadar e depois estirar-me ao sol escutando conversas esparsas, tomando uma caipirinha

Poderia visitar aquela amiga que, como eu, gosta da noite imprevista, fugir de todos os perigos e ver amanhecer o dia tomando cerveja sentadas na calçada do posto de gasolina
deitar na rede escutando o mar, dormir fora de hora, levantar-me de madrugada e sair pelo mundo naquela cidade pequena onde sempre encontro alguém para conversar
Depois voltar para a cama, dormir de novo, acordar com o sol já alto e re-dormir deitada em uma espreguiçadeira, ao ar livre

Poderia ligar para os amigos, combinar novos programas, chamar pessoas, conhecer novos lugares
descobrir saraus, ir às casas em que há reuniões de novos poetas, escutar o que gosto e o que não gosto nem um pouco, ou apenas observar
passar os fins de semana no campo com minhas irmãs, que correm doces e mansos e cheios de gente a contar coisas, e perguntar e trocar

Poderia visitar amigos que moram distantes, chamar outros para virem à minha casa, 
sentir a delicia de estar com gente com quem nem preciso falar
andar pelas ruas, sentar nos bancos das praças e ver o sol de inverno por entre as árvores,
cozinhar tomando copos de cerveja, musica alta, comer e dormir.

Poderia.

Ou poderia estar aqui onde estou, 
a ter uma colcha de retalhos macia que me cobre e que
a cada dia renasce com um novo retalho que me conta uma nova história,
tornando os dias cheios de imprevistos e de sentimentos.

Neste momento a vida se renova e sabe a flores silvestres, vidros perfumados, fragrâncias ímpares e novos sabores
e é vivendo este momento que apreendo o que vale a vida 
quando vale a pena da vida, ser neste momento, vivida.

Tita - 29/08/2014

Tudo a ver